Saturday, October 06, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - É preciso prevenir


É preciso prevenir


Pedro J. Bondaczuk


O racionamento de energia elétrica, nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro Oeste do País, determinado pelo apelidado "Ministério do Apagão", entrou em vigor, no dia 1º deste mês, num clima de indisfarçável descontentamento popular. Ninguém gosta que lhe digam o que, como e quando consumir. E, principalmente, as pessoas de brio não admitem que essa indicação venha (como agora) acompanhada de absurda coação, feita antes mesmo do apelo haver sido atendido ou recusado.

Mesmo assim, as medidas de economia de energia elétrica, determinadas pelo governo, vêm contando com amplo respaldo da população, consciente da necessidade de poupar para não faltar. Estão aí os números, divulgados pelas concessionárias, dando conta da majoritária adesão dos brasileiros (até das regiões não submetidas a racionamento), ao programa de racionalização do consumo, inclusive antes mesmo que ele fosse efetivamente implantado.

Alguns ítens, aliás, eminentemente antipáticos (senão ilegais), foram alterados na última hora, alterações estas anunciadas, em cadeia nacional de rádio e televisão, na última segunda-feira, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, numa tentativa do governo de evitar uma enxurrada de ações na Justiça. É possível que tenha logrado êxito. Afinal, ninguém quer briga pela simples briga. Todos desejamos, isto sim, salvaguardar legítimos e sagrados direitos, assegurados pela lei máxima do País: a Constituição.

Agora que a coisa está feita, que os efeitos da omissão das autoridades (e não importa se do atual governo ou se dos anteriores) no que diz respeito aos investimentos nessa área tão estratégica estão se fazendo sentir, não compete discutir (não pelo menos neste momento) de quem é a culpa. Requer-se competência, pulso firme, conhecimento de causa, senso prático e sobretudo muito realismo, para que o País passe quase incólume (ou pelo menos com o mínimo de prejuízo possível), por essa fase aguda de estiagem, quando os reservatórios de água das principais hidrelétricas nacionais se encontram perigosamente vazios. Não temos outra alternativa.

É preciso poupar, poupar e poupar energia elétrica. Não por receio das odiosas sobretaxas impostas pelo governo. E nem por medo da perspectiva do cidadão ter seu fornecimento de eletricidade interrompido, caso não alcance a meta de economia, de 20% no consumo. É que poupando, não vai faltar. E todos serão beneficiados, tanto os que concordam, quanto os que discordam das medidas determinadas pelo Ministério do Apagão. Ademais, o que for economizado, será um importante reforço no orçamento doméstico de cada um, o que nunca é de se desprezar.

A discussão lógica, daqui para frente, não deve se centrar em quem é ou quem não é o culpado pela atual situação. Até porque, essa "caça às bruxas" nada irá render de prático e de efetivo a ninguém. Discussões desse tipo nunca renderam e jamais passaram de mera perda de tempo. A sociedade deve, isto sim, mobilizar-se para exigir, mediante todos os meios de que dispõe, que sejam feitos, no tempo mais curto possível, os investimentos que faltaram até aqui. Principalmente na expansão da rede de transmissão de energia, o "calcanhar de Aquiles" do "imbroglio" energético brasileiro. O resto é blá-blá-blá dos políticos ou dos politiqueiros.

Não é hora, pois, de chorar o leite derramado, apesar dos pesados prejuízos econômicos que certamente o País vai ter, com seriíssimos reflexos sociais. Todo o empenho deve ser no sentido de evitar que nos próximos invernos, chuvosos ou não (não importa) tenhamos a repetição do que está ocorrendo neste. E se nada for feito, se as coisas forem mantidas rigorosamente como estão, nos anos vindouros o déficit energético nacional certamente vai se agravar. E o País terá o seu desenvolvimento, senão totalmente paralisado, pelo menos bastante reduzido, com prejuízos irrecuperáveis para as novas gerações.

A sensação geral, neste momento, é das mais desagradáveis: é a de que o Brasil está andando para trás. E isto acontece justo num momento em que a economia mostrava inequívocos sinais de recuperação, após anos e anos de estagnação, ora sob um pretexto, ora sob outro (remember: crises do México, da Ásia, da Rússia, da Argentina, etc. etc. etc.).

Desculpas nunca faltaram e jamais faltarão para justificar a incompetência e o fracasso de algum projeto, empreendimento ou modelo econômico. E o atual fracassou, embora seus defensores (ou advogando em causa própria ou por pura ignorância da realidade), teimem em não admitir. A História irá punir os verdadeiros culpados pelo que está acontecendo...

(Editorial da Folha do Taquaral de 4 de maio de 2001).



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