Saturday, October 01, 2016

Anseio justo, mas inoportuno


Pedro J. Bondaczuk


A declaração unilateral de independência da Lituânia completou, ontem, o primeiro mês, com ambas as partes mantendo-se irredutíveis em suas posições. Sem descartar a legitimidade da reivindicação lituana, uma coisa não se pode negar. A tentativa de secessão não poderia ocorrer num momento mais inoportuno, quando as superpotências estão empenhadas em delicadas negociações, objetivando estruturar a nova arquitetura européia. A questão, no nosso entender de importância secundária, (tanto no contexto da Europa quanto, principalmente, no mundial), vem dispersando forças e energia de um dos principais arquitetos destes novos tempos: o presidente soviético Mikhail Gorbachev, que além de tudo vê a instabilidade de seu próprio cargo se tornar maior.

A Casa Branca percebeu bem essa situação. Daí a cautela de Washington no trato desse delicadíssimo tema. O presidente George Bush (como de resto todos os dirigentes ocidentais) não esconde suas simpatias pelo sonho autonomista dos lituanos. Todavia, como estadista que é, não pode colocar as preferências pessoais acima dos interesses do seu país e dos aliados. Para o mundo, é importante que o Leste europeu consolide as incipientes democracias que surgiram em fins do ano passado. Que, consolidando as reformas políticas, se verifiquem as mudanças econômicas, na direção de uma economia de mercado, sepultando de vez o sistema falido das economias centralizadas e planificadas. Que o processo de reunificação das Alemanhas, que sempre se soube que um dia ocorreria, se dê sem traumas e sem que se desestabilize o frágil sistema de segurança européia.

Todos estes são temas delicadíssimos, que envolvem muito mais gente do que os 3,8 milhões de lituanos e interesses bem mais elevados do que as pretensões autonomistas desse povo. Pode parecer uma colocação cínica, mas ela é, sobretudo, realista. Seria uma estupidez sacrificar-se coisas fundamentais em troca de algo que pode esperar. Até porque, no momento, a Lituânia não teria condições de caminhar com seus próprios pés. Precisaria de uma injeção maciça de capitais para se tornar um país viável.

Só o fato de ter que comprar seu petróleo a preço de mercado, sem os subsídios que recebe de Moscou atualmente, já seria suficiente para arrebentar sua economia, que já não é das mais sadias. É tolice colher frutos de uma árvore antes que eles estejam maduros e prontos para a colheita. a independência da Lituânia, possivelmente, virá, mas no seu tempo certo. No contexto de uma nova Europa, que vai substituir o confronto e a desconfiança que imperaram ao longo de séculos, pelo entendimento e cooperação. Esta era está, ao que tudo indica, bastante próxima, desde que tolas precipitações não venham a estragar um trabalho diligente e cheio de paciência de muitos anos.


(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 12 de abril de 1990)

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