Tuesday, October 04, 2016

Grotesco e cruel


Pedro J. Bondaczuk


O escritor Machado de Assis constatou, numa de suas crônicas, que "a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e o cruel". Tal caracterização encaixa-se como uma luva ao Iraque contemporâneo, dividido em três partes, se forem consideradas as zonas de exclusão no norte, habitat dos curdos, e no sul, de população predominantemente xiita.

Desde o fim da guerra do Golfo Pérsico, em 28 de fevereiro de 1991, o ditador iraquiano vem se recusando, ao menos para o seu público interno, a admitir a derrota. Tanto é que após esse conflito, os grandes jornais de Bagdá enalteceram a "vitória" do Iraque sobre os aliados. Claro que isto descamba para o grotesco. Mas parcela da população aceita essa versão como um fato sem contestação.

Desde o fim da guerra as Nações Unidas vêm tentando fazer os iraquianos cumprirem os humilhantes termos da rendição, que colocaram fim às hostilidades militares naquela oportunidade. O presidente Saddam Hussein, que na ocasião acatou as imposições e prometeu cumprir uma a uma, vem fazendo o jogo do gato e do rato com os fiscais da ONU. Colocou todos os obstáculos possíveis e imagináveis para a inspeção de suas bases militares, que visava a localizar e destruir armas químicas, bacteriológicas e eventualmente nucleares.

O supercanhão que o Iraque estava construindo foi localizado e dinamitado. Todavia, até hoje, os inspetores das Nações Unidas não podem afirmar com absoluta segurança se o país está ou não de posse de tecnologia e recursos para a construção de uma bomba atômica, mesmo que rudimentar.

Nos últimos dias, o ditador iraquiano voltou ao velho discurso de agosto de 1990, quando suas tropas invadiram e ocuparam o Kuwait. Reiterou que o emirado faz parte do território do Iraque e que seu povo não abre mão da sua anexação.

No início da semana, soldados iraquianos à paisana empreenderam ousada ação numa base kuwaitiana, capturando uma determinada quantidade de armas. Além disso, mísseis foram postados na zona de exclusão no sul, ameaçando a segurança das forças de manutenção de paz da ONU.

Estas últimas operações foram a gota d'água que faltava para esgotar a paciência dos aliados. Cento e catorze caças empreenderam, nas últimas horas, uma ação punitiva contra o Iraque. É impossível falar dos resultados já que, por se tratar de operação militar, os responsáveis pelas informações apenas informam à opinião pública o que lhes convém.

O que está bastante claro é que a tática de isolar esse país dividido, privando-o da possibilidade de ter vida normal na comunidade internacional, cujo objetivo declarado ainda em março de 1991 pelo presidente norte-americano George Bush era o de forçar os iraquianos a se livrarem de Saddam Hussein, não vem dando certo.

Quanto mais pressionado é o povo, mais parece disposto a resistir. Esse é o lado cruel da questão, que vem se juntar ao grotesco. Não seria, pois, o caso dos aliados darem uma "mãozinha" para livrar a população do Iraque desse flagelo? Crueldade por crueldade, a maior é deixar esse homem no poder, comprometendo o presente e o futuro de sua gente.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 16 de janeiro de 1993).


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