Sunday, August 26, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Rumo equivocado


Rumo equivocado



Pedro J. Bondaczuk



O ano de 1999, se não se constituiu na tragédia, pintada, em cores fortes, no final de 1998, pelos economistas que são dados a previsões sombrias, não é daqueles que vão deixar saudades. Muito pelo contrário. Foi caracterizado, na área econômica, pelo desemprego (que recuou, posto que muito discretamente, nos últimos meses, conforme dados do IBGE), pelo agravamento da crise social e por uma profunda recessão, que tornou um pouco mais pobre o seu imenso contingente de miseráveis, estimado em torno de 35 milhões de pessoas. Frustrou, portanto, as esperanças daqueles que contavam com uma pelo menos discreta retomada do crescimento econômico, em especial neste segundo semestre, o que, todos sabem, não aconteceu.

Para complicar, em decorrência de uma série de fatores, internos e externos, entre os quais o principal foi a maxidesvalorização do real frente ao dólar, ocorrida em janeiro, a inflação voltou a mostrar a sua cara. É verdade que não ocorreu a explosão inflacionária, prevista pelos catastrofistas. Mas as taxas, posto que "civilizadas", foram intoleráveis para os trabalhadores, há cinco anos sem reajustes de salários e que ainda assim tiveram que "levantar as mãos para o céu" por terem conseguido (os que conseguiram, é claro!) manter seus instáveis empregos.

De acordo com análise recente da Fundação Getúlio Vargas, divulgada pela imprensa, no entanto, o crescimento da inflação ocorreu mais por culpa do próprio governo do que de qualquer outro agente econômico. A FGV assegurou que, caso não ocorressem os abusivos e escorchantes aumentos das tarifas públicas (eletricidade, água, telefone, etc.) e, principalmente dos combustíveis, em especial do álcool, o acumulado do ano ficaria em torno de 1%. Durma-se com um barulho desses!! Nesta altura, o cidadão fica sem entender mais nada!

Afinal, o fim da inflação não foi, até aqui, o grande trunfo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que lhe garantiu dois mandatos consecutivos?! A sorte do governo foi que os preços dos alimentos (a não ser em um caso ou outro, como o da carne, no período da entressafra), tiveram um comportamento exemplar. Mas as previsões, pelo menos para o início de 2000, no que diz respeito especificamente aos produtos agrícolas, não é das mais alvissareiras.

A seca que afeta vastas regiões produtoras, em especial da Região Sudeste, tende a provocar considerável quebra na safra de alguns produtos básicos. Um deles é o milho, utilizado como ração para animais. Com a provável elevação do preço desse grão, a carne deverá continuar inacessível na mesa de muitos brasileiros (a maioria), e racionada, na daqueles com um poder aquisitivo um pouco melhor.

Certamente, não era com um Brasil desses que a maioria sonhava para o ano 2000. Às dificuldades econômicas (senão em consequência delas), juntam-se outras questões graves, que causam profunda irritação e enorme desencanto nas pessoas, como a violência urbana, a corrupção, o tráfico de drogas e a indecente e perigosa evolução do crime organizado, entre outras tantas mazelas existentes num país que tinha tudo para ser exemplar, na ocasião em que vai completar 500 anos de descoberta, e que, no entanto, se revela uma sociedade egoísta, perversa e a mais injusta do Planeta, em termos de partilha das suas riquezas.

Ainda está em tempo de se promover uma reversão de expectativas. Não é tarde para recolocar o Brasil na trilha do desenvolvimento. O País conta, para tanto, com recursos naturais extraordinários, com uma reserva de água doce (que certamente vai valer muito mais do que o petróleo no próximo milênio, dada a sua escassez) que é a maior do Planeta e com um potencial humano dos mais expressivos, bastando ser "burilado", mediante uma educação voltada para o coletivo.

Um dos maiores males nacionais é o exacerbado individualismo de determinadas categorias, tachadas como "elites". É a falta de patriotismo, palavra que, não se sabe por qual razão, se tornou "impropério" na boca de imbecis, que se julgam "modernos", "avançados", "inteligentes", mas que não passam de alienados, que sequer intuem a razão de estarem vivos. É indispensável que a maioria dos brasileiros "reme" numa mesma direção. É preciso que o fosso que separa ricos de pobres venha a ser, senão suprimido, pelo menos bastante estreitado, para que se estabeleça um mínimo aceitável de justiça social. Mas não será com políticas esdrúxulas e excludentes, como a atual, que construiremos o país dos nossos sonhos para as futuras gerações. Faz-se indispensável, e urgentíssima, uma cruzada nacional desenvolvimentista, que priorize o emprego e a distribuição equitativa de renda. O Brasil já perdeu toda a década de 80, quando marcou passo e, por falta de solução, viu agravados seus principais problemas. Para complicar, "jogou fora" também os últimos dez anos, chegando mesmo a retroceder, em relação a outros países, de menos recursos do que os nossos. É preciso se desdobrar, portanto, para fazer, no menor tempo possível, tudo o que deixou de ser feito nos últimos dramáticos e sofridos vinte anos.

(Editorial publicado na Folha do Taquaral na primeira quinzena de dezembro de 1999)



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