Friday, August 24, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Novo retrocesso


Novo retrocesso


Pedro J. Bondaczuk



O mais recente pacote de medidas, anunciado pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, para substituir os recursos que estavam sendo gerados pelos descontos da taxa de Previdência dos funcionários públicos aposentados, e que deixarão de entrar para os cofres do governo, em decorrência de uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça, que julgou essa cobrança inconstitucional, foi uma decepcionante ducha de água gelada nos que acreditavam em uma retomada do crescimento econômico, posto que lenta e discreta, com a consequente geração de empregos, ainda neste ano. Vamos terminar 1999, portanto, mais ou menos como acabamos 1998, mesmo não havendo agora o pretexto de crises externas, (na Rússia, na Coreia do Sul, na Indonésia ou seja onde for), como havia no ano passado.

As providências adotadas, (e não se discute aqui sua necessidade ou não), todas de caráter recessivo, já que implicam em elevação da carga tributária do setor produtivo, resultarão, certamente, em aumento dos preços dos produtos, o que vai desestimular e reduzir o consumo e provocar a diminuição da produção, novas concordatas e falências e, como seria de se esperar, mais demissões de trabalhadores. E o perverso círculo vicioso da miserabilidade e exclusão social vai continuar afetando (só Deus sabe até quando) a maioria esmagadora dos brasileiros, que já não suportam mais tantos sofrimentos, incertezas e aborrecimentos.

O maior problema nacional hoje é o desemprego. Quem está nessa situação não pode esperar até que a economia melhore ou até que esse "deus ex-machina" do homem contemporâneo, chamado de "mercado", decida quando, como e com que salário o indivíduo pode ser contratado ou recontratado para trabalhar. Ninguém trabalha por esporte, convenhamos. As contas continuam se acumulando na mesa desse pai de família, desesperado em encontrar um meio honesto e decente de obter o mínimo para a sua sobrevivência, em vão. Cada dia que esse cidadão permanece desempregado, representa um retrocesso social de anos, talvez irrecuperável, não apenas seu, mas principalmente dos seus filhos.

Diante da atual situação, a desigualdade social no Brasil, que já era, senão a maior, pelo menos uma das maiores do mundo, tende, é claro, a se acentuar. Tudo o que foi feito até aqui, para corrigir essa vergonhosa distorção, está ameaçado de se perder. Nesse aspecto, o País vem retrocedendo a passos largos, fazendo prever terríveis problemas sociais mais adiante. Adiar nunca significou solucionar. Pelo contrário...

A violência urbana, fruto amargo dessa mesma venenosa árvore do desemprego e da exclusão, continua também aumentando, colocando toda a população na defensiva, diante do crescente clima de insegurança e de medo que aí está. É como se estivesse em andamento uma guerra civil não declarada no País, e das mais sangrentas, pelo número de mortos registrados diariamente nas grandes cidades brasileiras. Claro que o aumento da criminalidade não pode ser atribuído à crise econômica (ou não somente a ela). As causas são muitas e bem mais complexas do que se dá a entender, sendo que o tráfico e o consumo de drogas estão entre as principais. Mas que o desemprego, e o consequente aumento da miséria (agravado por ele), contribuem para essa escalada da violência, nem é preciso ser sociólogo para perceber que sim.

Todas as medidas anunciadas, ou adotadas pelo governo, até aqui, para a criação de novos postos de trabalho, nos vários setores de atividade econômica, são de médio e de longo prazo. Será que os desempregados podem esperar que esses programas, divulgados pela imprensa engajada com tanta pompa e circunstância, do tipo "Avança Brasil" ou coisa que o valha, amadureçam? Claro que não! Parece, na verdade, (e tomara que estejamos errados), que esses solenes anúncios não passam de meras peças de marketing político de um governo que continua quebrando recordes de impopularidade. Mas as necessidades dos milhões de brasileiros desempregados não esperam. A fome não espera. O locador não espera. O dono do supermercado não espera para receber o valor das mercadorias que o trabalhador sem emprego necessita para alimentar os filhos. A farmácia não espera. Ninguém espera o Brasil "avançar", sabe-se lá quando ou como, para receber aquilo a que tem direito. Por que o trabalhador, cujo único capital é a competência e a capacidade de gerar riquezas (para outros), tem que esperar? Por isso, toda e qualquer medida adotada, que venha a retardar a retomada do desenvolvimento econômico nacional, por mais que os tecnocratas busquem justificar sua suposta necessidade (e eles sempre têm alguma justificativa engatilhada), é retórica, é desumana, é perversa e é, sobretudo, impatriótica. Afinal, são pagos pela sociedade para encontrar soluções mais justas e mais inteligentes do que estas...


(Editorial publicado na Folha do Taquaral na primeira quinzena de outubro de 1999)



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