Tuesday, August 28, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Incoerência do pacote


Incoerência do pacote



Pedro J. Bondaczuk


A equipe econômica do presidente Fernando Collor surpreendeu a maioria dos brasileiros, anteontem, com o anúncio de um novo plano econômico, menos profundo do que o de março do ano passado, que tinha um caráter emergencial para deter a hiperinflação: o 15º colocado em prática desde o início do regime militar em 1964.

O programa, como todos os elaborados de cima para baixo, impostos a poder de decretos – no caso, por uma medida provisória – tem coisas boas e ruins. O aspecto francamente positivo é a reforma estrutural na economia brasileira, principalmente no sistema financeiro.

O lado incoerente e incompreensível é a reprise de um recurso francamente desmoralizado, que a ministra Zélia Cardoso de Mello e seus assessores haviam descartado em inúmeras oportunidades e ao qual apelaram agora, que é o congelamento de preços e salários.

O salário pode ser congelado com facilidade, já que permite o controle. Os preços não. Em um país pequeno como Israel, por exemplo, não funcionou, e funcionará muito menos no Brasil, com suas dimensões continentais, pela absoluta falta de condições para uma fiscalização.

Além disso, a imposição dessa medida contraria a tão propalada pregação do governo de que as leis naturais de mercado, e somente elas, regeriam as transações econômicas. Nos 13 planos anteriores à subida de Collor ao poder, todos elaborados de cima para baixo – o primeiro foi o coordenado pelo ex-ministro do Planejamento, Roberto Campos – buscou-se, como agora, a queda da inflação e a recuperação do setor produtivo.

O que se conseguiu? Obteve-se, apenas, o desarranjo total da economia brasileira, permanentemente engessada pelo excessivo controle governamental. Além disso, as mudanças frequentes nas regras do jogo inviabilizam todo e qualquer planejamento sequer de médio prazo.

Outro resultado que se teve foi uma inflação acumulada, apenas no período de 1980 a 1989, de 43.418.000%!! Os salários, por outro lado, passaram a ser os vilões inflacionários apenas em 1983, sob a orientação do Fundo Monetário Internacional.

Desde 1964, a política salarial sofreu 12 mudanças, cada uma mais desastrada do que a outra. Cada tecnocrata que elaborou algum plano achou que o seu sempre era melhor do que o anterior, de outro colega de função. Esse procedimento torna muito oportuna a observação do escritor irlandês George Bernard Shaw, que se celebrizou por suas críticas ao comportamento da sociedade e dos políticos, quando disse: “Se todos os economistas fossem colocados em fila circular, não conseguiriam fechar uma roda porque não concordariam no ponto onde o círculo começa e onde acaba”.

(Editorial publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 2 de fevereiro de 1991).


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