Tuesday, September 04, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Catastrofismo barato


Catastrofismo barato



Pedro J. Bondaczuk


Os empresários estão pessimistas quanto aos rumos da economia brasileira neste 1991 que começou, aliás, dentro das previsões feitas no final do ano passado, com guerra no Golfo Pérsico, a teimosia da inflação em não baixar – mostrando que alguma coisa no Plano Collor não saiu conforme o figurino elaborado pela equipe econômica – e com a persistência da recessão que, embora mais branda do que a esperada, segue inibindo os investimentos.

A revelação desse pessimismo foi feita mediante a divulgação da pesquisa da firma de consultoria Price Waterhouse. Das 500 grandes empresas pesquisadas, mais de 50% dos seus dirigentes não viram melhores perspectivas no horizonte até fins de dezembro.

Há, inclusive, os que preveem que as coisas irão piorar nos próximos meses. A maioria acha que a chegada ao fundo do poço irá ocorrer até abril e que a recuperação firme virá apenas em 1992.

Esses resultados refletem um certo fatalismo, não condizente com a nossa cultura, mais próprio de outros povos. As pessoas raciocinam como se os bons e os maus eventos estivessem predeterminados e não houvesse qualquer meio de reversão. Pensam como se os fatos não tivessem necessariamente por trás deles um agente com poder de livre arbítrio, um sujeito que lhes dê essa característica factual.

Esse raciocínio está naquela linha do “maktub”, que em árabe significa “estava escrito”. Esse fatalismo, todavia, não acrescenta nada de prático nas ações das pessoas e atua como fator inibidor de iniciativas. O empresário Walter Sacca, em entrevista a um canal de televisão na quinta-feira foi muito feliz ao constatar, embora isso seja o óbvio, que 1991 será favorável ou não de acordo com o que todos fizerem.

Nada obriga que o ano seja ruim e nem determina isso. Muitas das previsões catastróficas do início de janeiro, por exemplo, já furaram, para decepção dos pessimistas profissionais. Falou-se em explosão inflacionária e, embora a taxa tenha de fato subido mais alguns degraus, está bem abaixo das cifras previstas.

Comentou-se que a recessão atingiria o ponto máximo no decorrer do mês. Não atingiu. Previu-se que, se estourasse a guerra no Golfo Pérsico, os reflexos sobre a economia brasileira seriam imediatos e catastróficos. O conflito começou e a única catástrofe que apresentou até aqui foi a virtual destruição da milenar Bagdá e uma grave agressão ao meio ambiente na zona de combate.

Todavia, o Brasil continua, e bem ou mal, todos seguem tocando suas vidas. Por isso o ideal de se fazer é deixar de lado os pueris exercícios de futurologia, que raramente conduzem a acertos nas previsões, e trabalhar duramente para construir não somente o ano, mas o futuro próspero com que todos sonham.

(Editorial publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 26 de janeiro de 1991).


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