Friday, January 01, 2016

Genocídio da fome


Pedro J. Bondaczuk


Os dados do mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o seu balanço anual “O Estado das Crianças Americanas”, revelam dados tão contundentes para a América Latina que não se pode deixar de dar razão àqueles que entendem que o descobrimento da América, por Cristóvão Colombo, há cinco séculos, foi uma tragédia para parcela considerável da humanidade. Sim, porque, a despeito de alguns políticos e economistas, o continente é habitado por gente, por seres humanos, por homens, mulheres, velhos e crianças, e não por números estatísticos e nem simplesmente pagadores de uma insólita dívida “eterna”.

A referido estudo dá conta de que, anualmente, morrem cerca de um milhão de menores latino-americanos e por causas tão corriqueiras, que chegam a revoltar os que têm algum resquício de sensibilidade. Uma das causas maiores de mortalidade, por exemplo, é a diarréia, cujos óbitos poderiam ser evitados com a administração de um simples soro caseiro! Nada mais do que um copo de água esterilizada, com uma colher de chá de sal e uma de sopa de açúcar.

A diretora da Unicef, Marta Mauras, disse, na Cidade do México, qual é a grande questão hemisférica: “O maior problema das crianças latino-americanas é a pobreza em termos gerais. Dos quase 180 milhões de crianças e adolescentes menores de 18 anos, mais ou menos a metade pertence a famílias pobres”.

Ou seja, cerca de 90 milhões de meninos e meninas estão condenados a uma vida sem perspectivas, à morte precoce por condições precaríssimas de trabalho --- se conseguirem trabalhar --- ou por desnutrição, ou ceifados pela violência das ruas ou mortos pela polícia se caírem na marginalidade, destino bastante provável para uma parcela considerável deles.

Nós, latino-americanos, não contentes com os erros e as omissões do passado, com a desorganização e a corrupção latentes no presente, estamos nos desfazendo do futuro. Quanto potencial desperdiçado por puro egoísmo das elites, por falta de visão de planejadores, por incompetência administrativa dos políticos, por criminosa omissão dos intelectuais!

Estamos conseguindo reproduzir neste hemisfério um inferno que nem mesmo a fértil imaginação do florentino Dante Aligheri conseguiria criar!

Para complicar as coisas, o relatório da Unicef não dá margem à mínima esperança. Pelo contrário. Marta Mauras conclui que “entre os 20% mais ricos, houve um aumento” no continente. Ou seja, o fosso econômico que separa humanos e subumanos está se alargando, relegando milhões de pessoas à absoluta desesperança.

Essa é a “bomba da miséria” contra o qual o ex-presidente da extinta União Soviética, Mikkhail Gorbachev, alertou, quando de sua recente passagem pelo Brasil. E qual a solução? O teatrólogo romeno Eugene Ionesco explica como tudo poderia ser resolvido, sem a necessidade de nenhum gênio, até porque a raiz do problema é óbvia demais para não ser enxergada.

“Por que não nos amamos? Era o que perguntava em sua lúcida ingenuidade o idiota de Dostoievsky. Para isso, não há necessidade de grandes homens e grandes doutrinas”, afirma o diretor de teatro. E não há mesmo, até porque se houvesse...

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 19 de dezembro de 1992).

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