Brasas sob as cinzas
Pedro J. Bondaczuk
O
seqüestro dos seqüestradores do navio italiano Achille Lauro, realizado
mediante uma espetacular operação a cargo da tripulação do porta-aviões
Saratoga da Sexta Frota dos Estados Unidos no dia 10 passado, se foi brilhante,
do ponto de vista militar, se revelou simplesmente desastroso em termos
políticos. De uma única vez, a Casa Branca conseguiu descontentar aos dois mais
importantes e estratégicos aliados que possui na região do Mediterrâneo, tendo
contribuído, até, para a queda de um governo. Desde sábado, o subsecretário de
Estado norte-americano, John Whitehead, mantém, em conseqüência desse
"affaire", uma intensa jornada, tentando consertar os efeitos nocivos
do episódio. Buscando recolher os cacos de uma confiança espatifada.
O
primeiro a ficar mal em toda a questão foi o presidente do Egito, Hosni
Mubarak, sobre quem recaíram as suspeitas internas de colaboração nesse ato.
Com o Egito vivendo outro de seus permanentes momentos de descontentamento
(raramente divulgados pelas agências, mas nem por isso menos reais desde os
tempos do falecido Anwar el-Sadat), tendo que conciliar facções extremadas do
islamismo e ainda assim fazer o papel de peão no jogo estratégico de xadrez que
se desenvolve no Oriente Médio, como um grande baluarte do Ocidente e único
país árabe a manter bom relacionamento com Israel, um caso como o do seqüestro
do Boeing egípcio possui todos os ingredientes necessários até mesmo para
desestabilizar esse regime. Se isso eventualmente viesse a acontecer, o maior
prejudicado seria, sem dúvida, o próprio presidente Ronald Reagan. E por
extensão, seria desmantelado todo o frágil equilíbrio, montado às duras penas
no final da década de 70, que impede uma guerra em grande escala na região. Ou
seja, o mundo todo perderia um pouco, em certa medida.
Mubarak,
nestes últimos dias, teve que enfrentar duras manifestações estudantis no
Cairo, reprimidas a ferro e fogo por suas forças de segurança. Ao mesmo tempo,
ficou devendo uma explicação a Yasser Arafat, líder da Organização para a
Libertação da Palestina, que havia requisitado a guarda dos seqüestradores do
Achille Lauro para um julgamento "em família". Aliás, durante todo
aquele incidente infeliz, o empenho maior do dirigente palestino foi o de
frisar que a OLP nada tinha a ver com a ação.
Com
a operação norte-americana, contudo, a organização de Arafat acabou ficando
mais comprometida do que nunca. Isso porque o líder, Mohammed Abbas,
pretensamente o negociador para o fim do seqüestro do transatlântico italiano,
foi também seqüestrado, junto com os quatro piratas que praticaram aquele ato.
E passou desde então a ser acusado insistentemente de ser o real mentor de todo
o plano, posição que ainda é defendida pelos Estados Unidos e por Israel, que
querem a todo o custo levar a julgamento esse auxiliar de Arafat. A OLP,
portanto, pelo menos perante a opinião pública, saiu com a imagem mais
comprometida do que nunca. Se ela tem ou não culpa na operação terrorista,
dificilmente se virá a saber com certeza.
O
governo do primeiro-ministro socialista italiano Bettino Craxi entendeu, pelo
menos implicitamente, que Mohammed Abbas eram de fato quem os palestinos
afirmavam. Ou seja, o responsável pelo fim do seqüestro do Achille Lauro e não
pelo começo. Por isso, deixaram-no partir da Itália rumo à Iugoslávia, de onde
se dirigiu para um país árabe não revelado, possivelmente o Iraque, para
esperar que a questão esfriasse. Isso, todavia, causou uma profunda crise
interna na coalizão governista em Roma.
O
ministro italiano de Defesa, Giovanni Spadollini, ao que parece, tinha um
compromisso pessoal com Reagan: o de enviar todos os palestinos, inclusive
Abbas, aos Estados Unidos, onde eles seriam julgados. Ficou, por conseqüência,
bastante revoltado com seu chefe, Bettino Craxi, que libertou incólume este
último. E que resolveu entregar a tarefa do julgamento dos quatro piratas à
Justiça do seu próprio país. Por esse motivo retirou o seu partido da coalizão
governista, decretando a queda do gabinete.
O
giro de Whitehead parece ter, de fato, aparado algumas arestas. Mas não se sabe
quantas. Reagan não pode prescindir das alianças com italianos e egípcios,
cujos países têm papéis importantíssimos a cumprir na tensa área do
Mediterrâneo, mormente no Norte da África e Oriente Médio. Mas nesse tipo de
questão sempre acaba ficando alguma brasinha de ressentimento sob as cinzas da
conciliação. E a qualquer momento o fogo pode voltar a arder...
(Artigo
publicado na página 14, Internacional, do Correio Popular, em 22 de outubro de
1985)
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