Sunday, October 11, 2015

Personagem que suscita amor e ódio

Pedro J. Bondaczuk

O escritor Leon Tolstoi é um dos grandes clássicos não somente da riquíssima literatura russa, mas das letras mundiais. Qualquer biblioteca que se preze deve ter, em seu acervo, pelo menos dois dos seus tantos livros, incontestáveis obras-primas de ficção de todos os tempos. Refiro-me, óbvio, a “Guerra e paz” e, sobretudo, a “Anna Karenina”. Claro que o ideal é contar com outras de suas obras (se possível, com todas), mas as duas que citei são absolutamente imprescindíveis. Por isso, são inúmeras as suas traduções, e suas edições, em diversos idiomas e várias partes do mundo. Se me perguntarem qual desses dois romances é meu preferido, não saberei dizer. Gosto demais de ambos, posto que por razões diferentes.

Em qualquer pesquisa que se faça, sobre personagens femininas inesquecíveis, é um pecado mortal não se mencionar Anna Karenina, a menos que não se tenha lido o livro ou assistido a filmes baseados no romance. Quem leu, todavia, não titubeia. O engraçado é que essa protagonista foge do padrão das heroínas, pelas quais nos apaixonamos e por quem torcemos para que tenham o clássico “happy end”, ao cabo do enredo. Há momentos, na leitura, que chegamos a detestá-la e enquadrá-la como vilã.

Afinal, Anna Karenina trai o marido, o conde (e funcionário público) Alexei Alexandrovich Karenin. Torna-se amante do oficial de cavalaria Alexei Kirillovisk Vronsky, pelo qual nutre uma paixão doentia, possessiva, com constantes surtos de ciúme, que apenas servem para afastá-lo cada vez mais. No início do romance adúltero, os dois pombinhos chegam, até, a fugir da Rússia, para a Itália, para manterem o romance proibido sem interferências alheias. Todavia não tarda para o amante dar sinais de fastio, já que o caso, para ele, não passa de mais uma aventura e pouco, ou nada, tem a ver com amor. O casal retorna a São Petersburgo, mas os dois têm tratamento muito diferente por parte da sociedade local. Enquanto o oficial continua sendo aceito normalmente em todos os círculos sociais e, de quebra, mantendo vários casos, a mulher é repudiada por todos, até pelas amigas mais íntimas, que também têm relações extraconjugais, posto que discretas (e, logicamente, secretas).

Bem, não vou resumir o enredo, já que não é minha proposta. Personagens femininas envolvidas com adultério não são sequer novidade em ficção. Só que, normalmente, são apresentadas por seus criadores como vilãs e não heroínas. Uma das exceções é Hester Prynne, a protagonista do romance “A letra escarlate” do norte-americano Natanhiel Hawthorne. Anna Karenina é outra, embora, em certos momentos. a encaremos mesmo como rematada vilã. Tolstoi apresenta-a como mulher fútil, amante de festas e de badalações, belíssima e sensual, mas com a cabeça cheia de fantasias quando se trata de amor, além de ser incapaz de controlar ciúmes. Há semelhanças e diferenças entre as duas. Ambas mostram-se mães dedicadas e mulheres recatadas, a despeito do adultério. Todavia, enquanto Hester tem seu esperado “happy end”, o fim de Anna Karenina é trágico, já que finda por dar cabo da própria vida. É como alguém (não me lembro quem) disse a seu respeito: “Conhecer seu percurso é viver numa montanha-russa com essa personagem, amando-a e odiando-a, tudo ao mesmo tempo”. Méritos, claro, à genialidade de Tolstoi.

Trata-se de figura tão marcante e tão complexa, que o cinema apropriou-se dela. Foram rodadas muitas versões cinematográficas do livro, sendo que as seguintes seis são as mais famosas:  a de 1915), com Betty Nansen no papel-título; a de 1935, com Greta Garbo e Fredric March; a de 1948, com Vivien Leigh e Ralph Richardson; a de 1985, com Jacqueline Bisset e Christopher Reeve; a de1997, com Sophie Marceau e Sean Bean e a mais recente, a de 2012, com Keira Knightley e Jude Law. Este livro de Leon Tolstoi é um dos melhores que já li. Valho-me deste resumo, que colhi na enciclopédia eletrônica Wikipédia, para justificar a razão deste meu entusiasmo até um tanto juvenil: "’Anna Karenina’ retrata comumente os temas de hipocrisia, inveja, fé, fidelidade, família, casamento, sociedade, progresso, desejo carnal, paixão, e o contraste da vida no campo e a vida na cidade. A tradutora Rosemary Edmonds diz que Tolstói não moraliza explicitamente no texto, mas o deixa fluir naturalmente desde ‘o panorama russo de viver’ e também afirma que a mensagem chave do livro é ‘ninguém pode construir sua felicidade sobre a dor de outro’”. Dá para não gostar de um livro desses?! Só se não se entender nada de Literatura ou não se ter o mais remoto bom-gosto!


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