Saturday, October 03, 2015

Baixas na Casa Branca



Pedro J. Bondaczuk


A saída do secretário de Defesa Caspar Weinberger da equipe de governo norte-americana, anunciada extra-oficialmente domingo à noite, e prevista para se configurar amanhã, caso se confirme, vai desfalcar o presidente Ronald Reagan de outro elemento-chave de seu ministério, daquele grupo que ele trouxe, virtualmente fechado, da Califórnia, ao iniciar o seu primeiro mandato.

Um a um, seus colaboradores mais íntimos, por um motivo ou outro, foram abandonando a Casa Branca, denotando um esvaziamento da atual gestão, às vésperas da largada para a corrida presidencial de 1988. Nomes como os de Alexander Haig (este demitido ainda no primeiro mandato, por causa da sua desastrosa atuação na Guerra das Malvinas), Donald Regan, Robert McFarlane, John Poindexter, Larry Speakes e vários outros, sumiram, subitamente, dos noticiários e deixaram a vida pública, para retornarem a seus afazeres particulares.

Entre todos estes, um que resistiu (diríamos, até heroicamente) aos assédios de grupos radicais, foi o secretário de Estado, George Shultz. Em várias ocasiões circularam rumores acerca da sua substituição. Numa delas, falou-se na nomeação da ex-embaixadora norte-americana na ONU, Jeanne Kirkpatrick, para ocupar o seu lugar.

Aliás, comentou-se, na época, que a sua preterição para o posto foi o que a levou a deixar (ao menos temporariamente) a vida pública e retornar ao magistério universitário. Quando o escândalo Irã-Contras começou a pegar fogo, no início do corrente ano, previu-se, também, que o chefe da diplomacia dos Estados Unidos não resistiria às pressões para que se demitisse. Resistiu. E, mais do que isso, escapou impávido do falatório, demonstrando, nas comissões investigadoras do Congresso, que foi dos poucos colaboradores do presidente a se opor à desastrosa venda de armas para o Irã e à mais catastrófica ainda transferência dos lucros assim obtidos para os rebeldes nicaragüenses.

Mas Shultz não faz parte da equipe original de Reaga. Daquela heróica e vibrante, de princípios de 1981. Um que fez, está sendo alvo, atualmente, de enorme ataque (sem que possa se defender): é o falecido diretor da CIA, William Casey, acusado (depois de morto) no livro do jornalista Bob Woodward (o grande sucesso da atual temporada editorial) de ter usado o órgão para a prática de vários atos ilegais (inclusive para a prática de atentados terroristas no Líbano).

Como se sente o presidente diante dessa debandada? Como alguém traído pelos amigos? Talvez! Certamente não deve ser uma sensação muito agradável o término de um mandato, onde se foi de um extremo ao outro do sucesso. Ou seja, do auge da popularidade, batendo o recorde de Franklin Delano Roosevelt, ao máximo do desprestígio, superado, nesse particular, apenas por Richard Nixon, após o Watergate. Esses sim seriam os autênticos e espinhosos “ossos do ofício”.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 4 de novembro de 1987)


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