Tuesday, March 05, 2013


Mundo de poetas

Pedro J. Bondaczuk

A poesia foi a manifestação pioneira de inteligência e organização do homem primitivo, assim que este começou a se organizar, socialmente, em comunidades, reunindo famílias, clãs e grupos aparentados, que foram embriões das primeiras cidades-estados. Precedeu, em muito, a filosofia e a ciência e todas as demais artes e teve a secundá-la apenas a música”. Essa foi a forma como iniciei texto anterior, neste espaço e, na sequência, demonstrei, com dados históricos confiáveis (diria irrefutáveis) que a poesia não é e nunca foi aquela “água com açúcar” que os mal informados e insensíveis acham que seja. Foi, e ainda é, fonte de sabedoria.

Fico imaginando um mundo comandado por poetas, encarregados de estabelecer e fazer cumprir suas normas e leis e habitado exclusivamente por pessoas sensíveis, que contrariassem o instinto de competição – característica de todos os seres vivos – e o substituíssem pela racionalíssima prática da cooperação, com o forte protegendo e auxiliando o fraco, o sábio orientando e guiando o néscio e em que não houvesse mais doenças, maldade, violência, cobiça e tudo o que há de ruim no Planeta e que desgraça a humanidade.
   
Comentando isso com um amigo, ele riu da minha ingenuidade. Classificou-a de piegas e amalucada. Disse que isso jamais seria possível, dada a simples natureza humana, enquanto animal que o homem é. Infelizmente, sei que não seria mesmo. O tal amigo – boa pessoa, mas (que me perdoe a sinceridade), um tanto tapado – não se contentou em ridicularizar e zombar do meu utópico idealismo. Acrescentou, á guisa de conclusão, que um mundo do jeito que pintei seria sumamente monótono e chato. Será que seria?!

Será  que para as coisas terem graça é preciso que haja sofrimento, competição, rebeldia, violência, dor e tantas e tantas e tantas coisas ruins que nos amofinam e desgraçam? Não sei se meu amigo foi sincero. Presumo (e prefiro acreditar na minha presunção) que não. Certamente não pensou antes de emitir uma opinião tão esdrúxula e derrotista.

Um mundo habitado e regido por poetas, em que não houvesse divisão por países e todos fôssemos cidadãos de uma única e indivisível nação, o Planeta Terra, é provável que tivesse, por Constituição, o “Estatuto do Homem”, do poeta Thiago de Mello, que certamente teve e ainda deve ter o mesmo sonho utópico que tenho. E essa Carta Magna estaria redigida nos seguintes termos:

“Artigo I
 
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
 
 
  Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
 
Artigo III
 
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
 
 
Artigo IV
 
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
 
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
 
 
Artigo V
 
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
 

Artigo VI
 
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
 
 
Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
 
 
Artigo VIII
 
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
 
 
Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
 
 
Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.
 
 
Artigo XI
 
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
 
 
Artigo XII
 
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.        

Parágrafo único:
 
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
 
 
Artigo XIII
 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
 
 
Artigo Final.
 
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem”.

Já pensaram como seria bom viver em um mundo assim, habitado só por pessoas valorosas e justas, cooperativas e solidárias? Albert Einstein, em um de seus livros, destacou: "O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que ele se libertou do seu ego". Isto não significa se humilhar, mas ser humilde. O servir, ao contrário do que pensam os tolos e os arrogantes, não implica em servilidade, mas em poder, quando feito espontaneamente, sem ser obrigado a essa prestação de serviço, ou sem que ela seja para ganhar dinheiro. É ato de liberdade, de grandeza, de generosidade.

É de gênios com essa característica e esse altruísmo que o mundo precisa. Por ausência de pessoas com essas virtudes é que vemos tanta arrogância, tanto cinismo, tanta injustiça, tanta corrupção e tanta canalhice ao nosso redor.

A idéia predominante na humanidade – claro que há exceções – é a de que os que são servidos é que têm poder. Seriam os que podem “comprar” nossos serviços e, de quebra, posar, com ares de superioridade, como todo-poderosos, não raro humilhando e espezinhando os que os servem. Parasitas é o que eles são!

Quem serve, mesmo que o faça por necessidade, para custear a sobrevivência pessoal e da família, o faz porque “pode” agir assim. Tem saúde, disposição e preparo para isso. E mais valioso ainda é o seu ato quando o faz por convicção, e não por precisão, livre e espontaneamente. Isto é força! Isto, sim, é poder, embora não seja reconhecido como tal por essa humanidade corrupta e alienada que aí está!

Seria chato um mundo habitado e governado por poetas, esbanjando beleza, solidariedade, justiça e cooperação, como o que esbocei? Ora, ora, ora. Talvez o seja sim, mas apenas para os medíocres e os masoquistas, por lhes faltarem sofrimentos e horrores.

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