Monday, March 04, 2013


Função civilizadora da poesia

Pedro J. Bondaczuk

A poesia foi a manifestação pioneira de inteligência e organização do homem primitivo, assim que este começou a se organizar, socialmente, em comunidades, reunindo famílias, clãs e grupos aparentados, que foram embriões das primeiras cidades-estados. Precedeu, em muito, a filosofia e a ciência e todas as demais artes e teve a secundá-la apenas a música. Muitos argumentam que esse papel de pioneirismo na expressão original de racionalidade cabe à pintura, citando, para tal, os inúmeros desenhos em paredes de cavernas pré-históricas, que resistiram ao desgaste do tempo e permanecem até hoje.

Ocorre que essa manifestação pictórica, que hoje entendemos como artística, tinha, para nosso primitivo ancestral, caráter puramente mágico. Não era considerado e nem encarado como arte, mas como uma espécie de liturgia. Aliás, entre os gregos, inclusive no seu auge, ocorreu a mesma coisa, a despeito da competência dos seus cultores. Ou seja, pintura e escultura também não eram entendidos como arte, mas como artesanato. Embora fossem produzidas obras criativas e geniais nesse período, tinham, para essa notável civilização, caráter meramente decorativo. Pintores e escultores, portanto, não eram considerados e nem chamados de artistas, mas de artesãos.

Fundamento minha afirmação nos estudos de inúmeros e ilustres historiadores que consultei. Por exemplo, no volume que trata dos “Processos da Idade Clássica”, da coleção “Os grandes julgamentos da História”, da Editora Otto Pierre (sob a direção de Franco Massara), leio o seguinte: “A primitiva cultura grega fora quase inteiramente confiada à poesia. Os poemas de Homero, e depois os de Hesíodo, constituíam uma espécie de grandes sínteses culturais que exerciam funções a um tempo educativas e de puro divertimento. A ‘Ilíada’, a ‘Odisséia’ ‘Os trabalhos e os dias’ exprimem um modo de ver a vida e de julgar os deveres da civilização humana, exprimem os ideais de uma sociedade inteira: ideal épico-heróico, em moldes aristocráticos nas duas primeiras, idéia de justiça e de colaboração no trabalho do campo e na humana luta contra a natureza, na terceira”.

Frise-se que, durante muito tempo – alguns pares de séculos –, a poesia foi a única forma de expressão culta e de transmissão de conhecimentos e experiências de uma geração a outra, dada a inexistência, ainda, de uma linguagem escrita. Sequer o primeiro alfabeto havia sido criado. Portanto, feitos considerados heróicos, descobertas e reflexões dos homens tidos como sábios eram poetizados, decorados por jovens de boa memória desde tenra idade e transmitidos, posteriormente, aos filhos e netos quando cresciam e geravam a própria prole. Não fosse a poesia, um imenso acervo de cultura, em seu sentido lato, teria se perdido irremediavelmente. E o homem jamais teria obtido qualquer grau de evolução.

Leio, ainda, no citado livro: “Assim essas obras (‘Ilíada’, ‘Odisséia’ e ‘Os trabalhos e os dias’) também exprimem, em forma poética, tudo aquilo a que nós chamamos filosofia e ciência: os mitos que dizem respeito aos inumeráveis deuses do Olimpo são tanto um modo de explicar os principais fenômenos naturais como de objetivar as características psicológico-morais da alma humana, os vícios, as virtudes, as paixões, o sentimento do destino etc. Com esses textos, transmitidos oralmente até Pisístrato, se formavam os gregos antigos e ainda na época de Péricles constituíam as suas primeiras leituras”.

Muito tempo depois – outro punhado de séculos – o teatro veio juntar-se à poesia como arte nobre e, simultaneamente, como instrumento de comunicação. Possivelmente – e desconfio que até por mil anos – as sociedades primitivas e o embrião do que viria a ser a Grécia Antiga, tiveram, nos poetas, simultaneamente, seus filósofos, cientistas, teólogos, jornalistas, historiadores, arquivistas e dezenas de outras tantas funções. E mesmo depois do surgimento de disciplinas específicas para cada uma dessas atividades, a poesia jamais perdeu sua importância, embora ficasse restrita ao campo artístico.

Na obra que citei, o autor ressalta: “Depois outros poetas em formas poéticas cada vez mais diferenciadas cantaram o valor da virtude, da coragem, da sageza, em elogios de conteúdo social e político; outros cantaram o amor; outros ainda exaltaram os vencedores das competições olímpicas, símbolo da perfeição e harmonia físico-moral da estirpe grega. Em suma, os poetas eram os grandes educadores e ao mesmo tempo, os grandes sábios, guias de confiança de todo o povo. Sólon, por exemplo, era um típico representante desta poesia civil, política e moral”. Voltarei, certamente, ao assunto.

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