Wednesday, October 22, 2014

Jogo de azar


Pedro J. Bondaczuk

A sociedade brasileira está, de novo, naquela situação do comandante de um navio que, na iminência de desabar uma tempestade – que deseja enfrentar de peito aberto – ordena a seus tripulantes que o amarrem no mastro para não ser arrastado para o mar.

Vem aí um novo choque, desta vez ortodoxo, para que o governo possa cumprir as metas prometidas na nova carta de intenções encaminhada ao Fundo Monetário Internacional. A receita escolhida, agora, é aquela tão conhecida do receituário do FMI: recessão purgativa. O País terá, portanto, nos primeiros meses de 1992, um agravamento do quadro recessivo que já se verifica, com todas as suas seqüelas, como desemprego, achatamento salarial e aprofundamento do fosso que separa ricos e pobres, ampliando a dívida social que já é das maiores.

Se o sacrifício der certo, tudo bem. O governo, todavia, atravessa grave crise de credibilidade. Amplos setores não acreditam no cumprimento do que foi prometido ao Fundo e não é raro se ouvir pelas ruas: “Já vi esse filme em algum lugar”. Teme-se por um acirramento do perverso processo de estagflação, ou seja, inflação alta com paralisia na produção econômica.

Que os ajustes prometidos ao FMI, na economia brasileira, têm de ser feitos, isso está, há tempos, para lá de claro. O que se contesta é a forma de execução e a duração do processo. Paul Samuelson, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1970, assinalou, há alguns anos, numa entrevista que concedeu: “Os economistas cultivam uma análise sadomasoquista do processo econômico. Segundo eles, a economia oscila permanentemente entre a recessão profunda e a distensão prematura. Não se arriscam a fazer projeções otimistas. Felizmente a economia é bem mais forte do que os economistas”.

Não é difícil de se perceber o quanto há de verdadeiro nisso. Adam Smith, num manuscrito de 1775, já afirmava: “Os planejadores atrapalham a natureza no curso das operações naturais sobre os negócios humanos, quando seria suficiente deixá-la sozinha, deixá-la agir livremente na efetivação de seus objetivos, a fim de que ela realizasse os próprios planos”.

Mais adiante, o notável economista escocês acrescenta: “Pouco se requer, para levar um Estado da barbárie mais baixa para o mais alto grau de opulência, além da paz, impostos baixos e uma administração aceitável da Justiça; todo o resto é feito pelo curso natural das coisas”. Ou seja, exatamente o contrário do que se verifica, há décadas, no Brasil.

O País precisa achar o seu caminho. A imensa, fantástica e crescente dívida social tem que começar a ser resgatada. Parodiando o ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, numa declaração que deu em 1987, se pode, ainda, dizer que “a socialização dos prejuízos e a privatização dos lucros continuam”.

Nunca é demais reiterar que os políticos e os tecnocratas têm que se conscientizar que não estão lidando apenas com frios números, mas com pessoas, com vidas, com destinos. Suas decisões afetam milhões de seres humanos, a maioria com ambições simples, comuns, baratas.

O que os brasileiros esperam é que lhes seja permitido ao menos trabalhar. E trabalho é o que mais o País precisa. Por isso, o mais sensato a fazer é não somente torcer, mas agir no sentido de que mais este sacrifício que vai se impor à cidadania não seja vão e que o programa dê certo.

O Brasil não pode ficar à mercê do acaso, num maquiavélico jogo de azar. Anteontem, ao explicar a carta de intenções encaminhada ao FMI, o secretário de Política Econômica, Roberto Macedo, acentuou: “Com alguma sorte se terá o programa sem o agravamento da desaceleração da economia”. A vida dos brasileiros não pode depender dessa roleta-russa.
  
(Artigo publicado na página 3, Opinião, do Correio Popular, em 8 de dez\embro de 1991)


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