Sunday, October 05, 2014

Fuga da vida ou da loucura?

Pedro J. Bondaczuk

Querido, tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer.

Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei.

Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você.

Tudo se foi para mim, mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.V”.

Este foi um dos últimos textos que Virgínia Woolf escreveu. Outro, do mesmo teor (provavelmente o derradeiro), foi escrito para sua irmã, Vanessa Bell. Era manhã de 28 de março de 1941. A escritora acabara de ter outro colapso nervoso. Estes vinham sendo, então, muito freqüentes. Ela interpretava esses desarranjos como sintomas de loucura. Não sei se, tecnicamente, poderiam ser interpretados como tal. Os especialistas se dividem, a propósito, até hoje, com base, contudo, apenas no que leem. Alguns acham que Virgínia estava mesmo no limiar da completa insanidade. Outros tantos entendem que não e que, com terapias adequadas, poderia ter sido curada e viver ainda alguns anos, lúcida e produtiva. Não tomo partido nessa celeuma. Afinal, não é minha especialidade.

A própria escritora, dias antes (como o jornalista e historiador Euler França Belém ressalta, em seu excelente e detalhado ensaio “Virginia Woolf tentou ‘curar’ sua loucura pelo suicídio”, publicado na Revista Bula), “no início de 1941 Virgínia estava desesperada, louca. Mesmo assim, tentou convencer a médica Octavia Wilberforce, uma amiga, de que não estava doente mentalmente. Mas confessou partes de seus medos. Medos de que o passado voltaria. De que nunca mais voltaria a escrever”. Deduzo que seu desespero maior, o que a levou à autodestruição, nem era causado pelo fato de ouvir vozes. Era por não conseguir (ela achava que não conseguiria) fazer mais o que tanto gostava, para o que vinha dedicando toda a vida. E isso, óbvio, era a Literatura. Era ESCREVER.

Recorro, de novo, ao ensaio de Euler, que descreve, de forma magistral, os últimos e dramáticos momentos da vida de Virgínia Woolf, como eu não conseguiria descrever com a mesma perícia. O jornalista escreve:“É triste e pungente como Quentin Bell fala do fim de sua tia escritora: Na manhã de sexta-feira, 28 de março, um dia claro, luminoso e frio, Virginia foi como de costume ao seu estúdio no jardim. Lá, escreveu duas cartas, uma para Leonard e outra para Vanessa — as duas pessoas que mais amava. Nas duas cartas explicava que vinha ouvindo vozes e acreditava que nunca mais ficaria boa; não podia continuar estragando a vida de Leonard”.

E Euler prossegue em seu relato, com base nas informações de Quentin Bell, sobrinho e biógrafo da escritora: “Ela colocou o bilhete sobre a lareira da sala de estar, e cerca de 11h30 esgueirou-se para fora, levando sua bengala de passeio; e atravessou os prados até o rio. Leonard acreditava que ela já havia feito uma tentativa para se afogar: assim, teria aprendido com o fracasso, e estava decidida a não falhar de novo. Deixando a bengala na margem, ela esforçou-se para pôr uma grande pedra no bolso do casaco. Depois, encaminhou-se para a morte, ‘a única experiência’, dissera um dia a Vita, ‘que nunca descreverei’”  E, por razões óbvias, não descreveu mesmo.

O rio, em que Virgínia Woolf deu cabo da vida, foi o Ouse, que flui pelas cidades de York, Selby e Goole, antes de desaguar no Humble. Seu corpo, já em avançado estado de decomposição, foi localizado (e resgatado) somente três semanas após o suicídio, ou seja, em 18 de abril. Está sepultado no “Non-Cemetery”, na localidade de Sussex. Minha narrativa poderia encerrar-se aqui, mas seria muito cômodo. Há muitas questões em torno do seu último ato que merecem, pelo menos, comentários, mesmo que superficiais, o que me proponho a fazer na sequência. Intriga-me, sobretudo, a maneira que Virgínia escolheu para se matar, ou seja, na água. Seria uma tentativa subconsciente de se “purificar”? Se foi, “se purificar” do quê? Achava sua conduta errada, como era acusada nos círculos mais puritanos da Inglaterra de então? Quem sabe? Creio que ninguém. Apenas é possível especular a propósito. Voltarei ao tema.


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