Wednesday, October 29, 2014

Europeus temem retaliações


Pedro J. Bondaczuk
  
O Irã parece, mesmo, ter uma influência fundamental na carreira política do presidente norte-americano Ronald Reagan e, principalmente, na imagem que ele vai deixar para a posteridade de suas duas gestões consecutivas na Casa Branca.

Em 1980, foi graças a esse país (e à sua Revolução Islâmica) que ele conseguiu derrotar Jimmy Carter, por uma diferença avassaladora de votos. Soube explorar, e muito bem, do ponto de vista político, a ocupação da embaixada dos Estados Unidos em Teerã e, principalmente, os inúmeros erros do seu antecessor democrata na gestão daquela crise. Depois, foi só colher os frutos.

Como por uma enorme ironia, ou uma imensa peça pregada pelos aiatolás, os reféns norte-americanos apenas ganharam a sua liberdade (após 444 dias de cativeiro) quando o ex-governador da Califórnia, escorado num prestígio quase sem precedentes junto ao eleitorado, tomou posse, em 20 de janeiro de 1981. Foi um revés muito duro para Carter.

Ao longo de todo o primeiro mandato de Reagan, os Estados Unidos deixaram o Irã em paz. É verdade que conservaram um embargo (de armas e econômico) a esse país e mantiveram o congelamento dos seus bens, na certeza de que isso e mais o rancor árabe contra os persas seriam suficientes para derrubar a teocracia iraniana. E quase foram mesmo.

A República Islâmica passou por maus bocados, por alguns anos de intensos apuros, com um terço de seu território ocupado pelo inimigo, com suas Forças Armadas desmanteladas e com a oposição interna agindo com dureza, cometendo atentados sucessivos e sangrentos, que tingiram a cúpula do governo, matando vários líderes mais chegados a Khomeini desde a primeira hora do novo regime.

Mas os analistas ocidentais se enganaram no tocante à soma de apoio que o velho aiatolá contava no país. Subestimaram o seu carisma e aquilo que ele representa para a população iraniana mais humilde, que sempre viu nele uma espécie de mensageiro de Alá.

De derrotados previamente nos prognósticos (as guerras só se vencem nos campos de batalha) os persas mostraram uma notável reação no plano bélico. Não só recuperaram uma parcela enorme de seu território, como reverteram o quadro da guerra, passando de invadidos a invasores.

A ligação de Reagan com esse país voltaria a ser conhecida apenas em 1986, quando, na verdade, secretamente, um ano antes, o seu governo já estava rearmando o Irã, com o qual os Estados Unidos sequer têm relações diplomáticas.

Os motivos desse rearmamento (os reais e não os oficiosos) dificilmente serão do conhecimento da opinião pública. Será mais um dos tantos mistérios para os historiadores do futuro desvendar. O fato é que o mesmo Irã, que serviu aos propósitos de Reagan durante a campanha presidencial de 1980, para que ele derrotasse Carter, pode ser agora a causa do sepultamento de suas pretensões de passar para a posteridade como estadista, e não como mero administrador. Pode custar-lhe, até, (no que não acreditamos, mas que não deixa de ser uma possibilidade, posto que remota) uma vexatória cassação.

Agora, a Casa Branca quer consertar as bobagens cometidas com uma outra: uma intervenção militar no Golfo Pérsico, sem essa ou mais aquela, a pretexto de proteger a navegação na região. Pretende, como se vê, colocar a tranca na porta depois desta haver sido solenemente arrombada. Quer dar segurança a uma área onde, em apenas três anos, 240 navios (de todos os tipos e tonelagens) foram alvos de bombas iranianas e/ou iraquianas.

O interessante é que o presidente norte-americano resolveu agir assim somente depois de ter uma embarcação do seu país atacada. Mas, para tornar a coisa ainda mais surrealista, pretende retaliar não contra quem fez esse ataque, o Iraque, mas contra quem até não faz muito seu próprio governo armou: o Irã. E, para isso, pressiona os europeus para que o acompanhem nessa aventura.

É evidente que a Europa não vai cair nessa. E nem poderia. O continente conta com três potências navais: Itália, Grã-Bretanha e França. As duas primeiras estão às voltas com eleições e a França as terá no ano que vem. Não iriam, portanto, arriscar tudo ou nada nessa roleta iraniana. Vai daí...

(Artigo publicado na página 14, Internacional, do Correio Popular, em 9 de junho de 1987).


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