Thursday, October 16, 2014

Como construir a liberdade


Pedro J. Bondaczuk


A palavra que João Paulo II mais ouviu, ontem, no Chile, depois de “liberdade”, certamente foi “tirano”, em alusão ao presidente desse país, Augusto Pinochet, pronunciada em coro, nas várias partes por onde ele passou, pelas mais variadas e heterogêneas concentrações humanas, num desabafo coletivo.

Houve momentos em que, quando se reunia com cerca de 800 mil pessoas (a maioria faveladas) no parque “A Bandeira”, na Zona Sul de Santiago, certamente ele chegou a temer pelo pior. Manifestantes exaltados, não contentes em mostrar suas faixas e cartazes, rústicos, crus, com a linguagem áspera de uma realidade amarga, passaram a agredir a polícia com pedras, garrafas e outros objetos, como que numa fúria que parecia incontrolável.

Liberdade, para não se tornar somente uma palavra, mas um conceito vivo e duradouro, é algo que não se conquista com a violência. Que não se exerce suprimindo ou ofendendo direitos alheios. Que não resplandece senão num clima de justiça e de respeito a normas consentidas por todos.

Muitos já morreram, cegamente, por ela, nos cerca de 100 séculos de civilização. E foram sepultados sem que soubessem que a bandeira que empunhavam e pela qual ofereceram o bem mais precioso que possuíam, era uma farsa. Defenderam e deram seu sangue por tiranos mesquinhos e rancorosos, que desprezaram olimpicamente o seu sacrifício.

O conceito de liberdade, como o de democracia, precisa ser definido com bastante clareza, pois está sujeito a distorções e manipulações as mais vis que se possam conceber. Para os povos do Leste europeu, por exemplo, os regimes policialescos que os subjugam, ensinam que esses Estados em que vivem é que são “democráticos”. Que eles são “livres” à medida em que servem a uma entidade abstrata, mero conceito, composta por sua vez por homens, contraditórios e corruptos como todos somos em certa medida, se transformando em meras engrenagens de máquina diabólica que os tritura, abrindo mão da principal característica desse ser inteligente, classificado na escala animal como “Homo Sapiens”, que é o seu livre arbítrio.

Os ditadores, por seu turno, têm os seus próprios enfoques de liberdade. Para Pinochet, por exemplo, ela não falta aos chilenos, quando todos sabem que a coisa não é bem assim. Que toda vez que algum semelhante é preso, torturado e assassinado por causa daquilo que pensa, todos nós o somos um pouco. E ele também se prejudica com isso.

Não é necessário ser nenhum filósofo e nem cientista político para concluir que ser livre não é agir dessa maneira. Que o sistema de governo chileno não é sequer um grotesco arremedo de um Estado de Direito, este sim, quando autêntico,  e quando suas engrenagens funcionam para “servir” o homem, não para ser “servido” por ele, cria condições para o estabelecimento de autêntica “liberdade”.

Poucas vezes João Paulo II, acostumado com a visão da miséria, do desespero e da injustiça social, sentiu tamanha angústia numa multidão, como certamente teve a oportunidade de experimentar, ontem, no Chile. Mas agiu com extrema sensatez ao aconselhar os desesperados.

Não pregou, como muitos fariam, a sublevação, a explosão do ódio, o desabafo violento à opressão. Recomendou prudência e negociação. Passou, sutilmente, a mensagem que a liberdade se constrói com a participação de todos, inclusive dos tiranos.

Rancores e ressentimentos geram atos cegos e irracionais. Estes, por sua vez, levam as pessoas a praticar justiça com as próprias mãos, que nada mais é do que a vingança, a antiga “dívida de sangue”. E ela é exatamente o extremo oposto do Direito, sem o qual nenhuma sociedade pode prosperar e sobreviver.

“Colaborem na construção de um mundo mais justo e fraterno, baseado na verdade, sustentado e preenchido na caridade e., finalmente, sob os auspícios da liberdade”. Este é o único caminho – que não é nada fácil, por sinal – para se acabar de vez com as tiranias. Caso contrário, só haverá a substituição de uma opressão por outra, apenas com um “rótulo” diferente e nada mais.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 3 de abril de 1987).


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