Thursday, February 01, 2018


Investimento em cultura


Pedro J. Bondaczuk

Campinas foi, em determinado período da sua história, importante centro produtor de arte e de cultura (esta, em seu sentido mais amplo), graças ao excelente nível de instrução da sua população e à criatividade e bom gosto do seu povo. Daqui saíram músicos notáveis, inspirados compositores (Carlos Gomes), criativos escritores (Guilherme de Almeida), talentosos artistas plásticos (Pancetti), etc., que luziram no País e no Exterior.

Hoje, a produção artística e cultural da cidade continua tão numerosa e de tão alta qualidade quanto no passado. Porém, por falta de estrutura adequada e de incentivos, artistas e intelectuais campineiros estão migrando para centros que lhes oferecem as oportunidades que não têm aqui.

Desde a demolição do Teatro Municipal – que ainda causa intensa polêmica – Campinas não conta com local apropriado para apresentações artísticas e culturais. Claro que a cidade tem outras prioridades, demandas sociais mais urgentes e sensíveis, como saúde, educação, obras públicas, etc., que requerem crescentes e constantes investimentos.

Todavia, as artes e a cultura não são, e nem podem ser considerados (como muitos pretendem), “bens supérfluos”. Em outros centros, maiores ou do porte do nosso – como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo – os investimentos em casas de espetáculos são feitos, com crescente frequência, pela iniciativa privada. Os teatros municipais, grandes e luxuosos, são cada vez mais desnecessários e até inviáveis, pelo elevado volume de recursos que sua construção requer e pelo custo proibitivo de sua manutenção.

Em Campinas, porém, essa lacuna não vem sendo preenchida. E os dois teatros municipais de que a cidade dispõe – ambos adaptados e precários, o do Centro de Convivência Cultural e o Castro Mendes (que era um cinema) – carecem da devida manutenção, o que é até temerário, por se colocar em risco a integridade física de artistas e espectadores.

Como a cidade está se transformando em importante polo de promoção de eventos, como congressos, seminários, simpósios, etc., de caráter nacional e internacional, atraindo para cá o chamado “turismo de negócios”, a necessidade de contar com locais apropriados para espetáculos é cada vez mais evidente (e urgente).

Eis aí um desafio (e excelente oportunidade de negócios) para grandes corporações. Cada vez mais, as empresas estão descobrindo as vantagens de associar suas marcas à arte e à cultura. Compete, nesse contexto, ao Poder Público, na impossibilidade de novos investimentos, conservar o que já se tem.

É inconcebível o estado de má conservação dos teatros do Centro de Convivência e do Castro Mendes, com goteiras por toda a parte (inclusive no palco) e com o forro ameaçando desabar. Está mais do que na hora, portanto, de se conscientizar que, longe de serem supérfluas, a arte e a cultura são bens essenciais de uma comunidade próspera, culta e altamente civilizada, como Campinas.

(Editorial publicado na página 2, Opinião, do jornal Roteiro, em 24 de setembro de 2002).


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