Use, se necessário
Pedro
J. Bondaczuk
Um leitor consulta-me, por
e-mail, sobre um tema bastante polêmico, que preocupa muitos redatores.
Pergunta-me o que “acho” do uso de palavrões em textos literários. Caríssimo
amigo, não “acho” nada. Analiso a questão como editor e respondo que, se sua utilização for oportuna, isto é, se estiver
no contexto, e, sobretudo, se der verossimilhança à história narrada, pode e
até deve ser usado. Sou contra é ao uso abusivo de xingamentos, apenas para
chamar a atenção ou chocar as moçoilas inocentes (se é que elas ainda existem)
com expressões escatológicas.
Exemplo? Estou narrando
uma história que se passa em um estádio de futebol. O juizão anula um gol
legítimo do time do meu personagem principal. Qual o comentário verossímil que
este faz? Dirá “sua senhoria, o árbitro, equivocou-se no lance?”. Claro que
não! Com certeza dirá “esse f..... da p... prejudicou meu time”, ou algo que o
valha, mas ainda mais contundente (preencha os pontinhos à vontade, caro
leitor).
Há exemplos e mais
exemplos em que o tal do palavrão não só é cabível, como é a única expressão
que se impõe, para que a história se pareça com a realidade. Nas peças do
Plínio Marcos, por exemplo, há uma infinidade de xingamentos entre os
personagens. Nenhum deles, todavia, absolutamente nenhum, é supérfluo,
dispensável ou está fora de contexto.
Da minha parte, evito,
o quanto posso, o uso de expressões chulas. E não se trata de moralismo, pois
arte (assim como o Direito) não tem nada a ver com moral. Muito menos a
literatura. Ocorre que nós, escritores, até por definição, somos cultores da
estética, ou seja, das belas letras. E não vejo qualquer beleza numa sucessão
de expressões infantilmente escatológicas, que denominamos, genericamente, de
“palavrões”.
Contudo, nunca forço o
texto. Nos contos que escrevo (e no romance, em fase de conclusão), sempre que
a situação impõe, mesmo que a contragosto, sapeco um ou outro palavrão. O
leitor sequer nota, tamanha é a oportunidade, naquele momento e lugar, do seu uso.
Podendo evitar circunstâncias de conflito, em que os palavrões se imponham,
evito. Mas, reitero, faço isso apenas em nome do bom-gosto. Não se trata, pois,
de nenhum moralismo hipócrita e idiota.
Até porque, a rigor, o
palavrão não existe. Não é o que se diz que é ofensivo, mas “como” isso é dito,
ou seja, a expressão de raiva e o tom de voz. Escrevi uma crônica a respeito,
analisando, um por um, os palavrões tidos e havidos como os mais “cabeludos”.
Concluí que são todas palavras inocentes, desde que não usadas com
agressividade.
Portanto, escritor
amigo, sempre que algum personagem seu precisar xingar alguém (um juiz, um
político sacana, um desafeto etc.) deixe-o fazer. Você, porventura, conhece
alguém que nunca xingou ninguém? Eu não!
Desconfio que até os
que são tidos como santos já desabafaram alguma vez dizendo algum palavrão
(persignando-se, provavelmente, a seguir, como manifestação de arrependimento).
Em suma: se tiver
necessidade de usar palavrões, use-os. Mas sem exageros. Tudo o que é demais
(até virtudes em demasia), aborrece, cansa e se torna ridículo e condenável.
Mas, cá para nós:: êta assuntinho difícil de tratar!!!
Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk
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