Absurda periodicidade
de epidemias
Pedro
J. Bondaczuk
A peste bubônica foi (e
em casos esporádicos, continua sendo) a doença que mais vezes se manifestou no
mundo, desde que o primeiro Homo Sapiens a contraiu e contaminou sua
comunidade. Quando isso se deu? Ninguém sabe e certamente jamais saberá. Mas,
certamente, foi há muitos milênios! Embora não haja dados estatísticos a
respeito – e nem poderia haver, se considerarmos esse passado remotíssimo – não
tenho dúvidas em afirmar que foi a catástrofe que mais mortes causou, superando
todas as guerras, terremotos, vulcões, tsunamis etc.etc.etc. somados. As
epidemias de peste eram sumamente comuns em quase todo o mundo até o
descobrimento de sua verdadeira causa, a bactéria “Yersinia Pestis”,
transmitida por pulgas que parasitam ratos e que picam pessoas, inoculando-lhes
o terrível agente causador. Toda a Europa (ademais, praticamente todas as
regiões do mundo, à exceção da isoladíssima Oceania), foi afetada, com
estonteante regularidade, pelo flagelo.
Um dos países bastante
atingidos pela peste bubônica foi a Inglaterra. Baseados em documentos da
remota Idade Média e em relatos de vários escritores desde então, não é difícil
de apurar a periodicidade das epidemias (posto que não com exatidão, o que nem
hoje seria possível). Analisando esses dados (posto que relativamente escassos)
é possível concluir que, em média, a Inglaterra foi vítima de pelo menos três
epidemias por século, isto desde os anos 900 (século X) da nossa era. Antes...
sabe-se lá quantas ocorrências houve!!! Mas a lógica indica que não foram
poucas. Afinal, as condições ideais para o surgimento e alastramento da peste
sempre estiveram presentes. Londres, por exemplo, era cidade infestada de ratos
(com as respectivas pulgas que os parasitavam, claro).
A situação nesse
aspecto agravou-se no século XVII, quando um “gênio” (o imbecil dos imbecis)
determinou o extermínio de cães e de gatos, justamente os inimigos naturais dos
roedores, sob o argumento de que esses animais eram os transmissores da doença.
Claro que nunca foram; Baseados no que esse maluco chegou a essa bizarra
conclusão? Em nada, evidentemente. Com isso, a população de ratos, que já era imensa,
aumentou em progressão geométrica, favorecida, ainda, por sua absurdamente
elevada capacidade reprodutiva. Calcula-se que, à certa altura, havia uma
proporção de vinte roedores por habitante. Desconfio que era mais, porém...
carece-se de provas. Ademais, todas as condições favoreciam a proliferação
desses per si sós prolíficos animais. Havia lixo por toda a parte, inclusive
(ou sobretudo) restos de comida. Em muitas partes (não sei se em todas. Presumo
que sim) esgoto corria a céu aberto. Higiene era coisa que poucos praticavam e,
assim mesmo, raramente e de forma precária.
Óbvio que tudo isso se
aplicava não só à Inglaterra, ou a Londres, mas a praticamente a todas as
partes do mundo. Para complicar, não havia sequer a mais remota noção do que
causava a doença. Não havia nada que sequer lembrasse, mesmo que de longe, a
Medicina que se pratica hoje. Milhares de charlatães (e até pessoas bem
intencionadas) aplicavam “remédios”, a torto e a direito, para enfermidades de
que não conheciam nada, que mais agiam como letais venenos do que como
eventuais medicamentos, minimamente eficazes. Por tudo isso é que venho
insistindo tanto em comentar sobre as várias epidemias de peste bubônica ao
longo do tempo e sobre como seus principais escritores trataram delas. Claro
que não era a única doença contagiosa que havia (posto que fosse a mais letal).
Ela convivia, e disputava vítimas, com o cólera, com a varíola, com a febre
amarela, com a malária etc.etc.etc. É possível que houvesse, por exemplo, uma
imensidão de casos de leptospirose (por que não?), causada pela urina de ratos
que, como enfatizei, abundavam.
Um dos tantos
escritores que relataram alguma epidemia de peste bubônica em Londres e
arredores foi Thomas Nashe. Trata-se de uma espécie de “geniozinho” das letras,
contemporâneo de Shakespeare, cuja obra (relativamente vasta para quem viveu
apenas 34 anos) é estranhamente ignorada. Pelo menos o é no Brasil. Não me
consta que algum de seus livros tenha sido traduzido para o português e
publicado por aqui. Oportunamente, e em outro contexto, tratarei com mais vagar
a seu respeito. Por hoje, adianto que Thomas Nashe nasceu em 1567 e que morreu
em 1601. Que foi escritor satírico, dramaturgo e poeta. E que tratou da doença
em uma pequena peça de teatro, intitulada “Última vontade do verão e
testamento”, datada de 1592.
Nela, Thomas Nashe
expressou seu medo de contrair a peste bubônica, que assolava Londres e
arredores em toda a década de 1590. Não sei qual foi a causa da sua morte.
Todavia, não ficaria nada surpreso se descobrisse que foi em decorrência da
peste. É bem possível. A peça incluía uma canção (que se tornou bastante
popular na Inglaterra daquele tempo) intitulada “Uma litania em tempos de
praga”. Observe-se que sua especialidade literária era a sátira. Não
surpreende, pois, que risse daquela (e de qualquer outra) desgraça, como fez na
citada “cançoneta”. A escolha que fez, desse tema, só comprova o quanto as
epidemias de peste bubônica eram comuns na Inglaterra daquele tempo (e,
ademais, em todo o mundo e em todos os tempos).
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