Thursday, March 22, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Tripé da crise


Tripé da crise



Pedro J. Bondaczuk


O principal foco da crise brasileira, que se arrasta desde 1982, quando o País descobriu, estarrecido, que o propalado “milagre econômico” foi uma balela, fundamenta-se num tripé: ausência de um projeto nacional definido que comprometa a maioria dos cidadãos, a incapacidade dos partidos de interpretar os anseios e as necessidades da sociedade e o crescente descrédito do Poder Executivo, que chegou a ser absoluto durante o governo do presidente Fernando Collor.

Como se observa, as soluções, propaladas ultimamente na imprensa, não passam, de remendos, de tapa-buracos, de paliativos. É necessário que se chegue ao âmago da questão, à sua raiz, para que o Brasil tenha condições de aspirar o desenvolvimento autossustentado e não se limitar, como agora, a apenas evitar de andar para trás.

Em termos econômicos, por exemplo, o País não definiu a vertente que pretende seguir. Alterna, caoticamente, um capitalismo nacional, com princípios associativistas, mormente com os Estados Unidos e com um tímido internacionalismo, no caso a abertura ampla para o mercado mundial.

Como se observa, tratam-se de caminhos contraditórios e até conflitantes. Com isso, recursos bastante escassos, tanto financeiros quanto humanos, acabam sendo malbaratados, agravando em muito a crise.

No terreno político, observou-se, durante as eleições presidenciais de 1989, a falta de sintonia dos partidos tradicionais, os cinco mais antigos, com os eleitores. Tanto é que as teses defendidas pelo PMDB, PDT, PT, PTB e PFL não empolgaram os brasileiros, que acabaram por entrar no barco furado de um até então incipiente e quase desconhecido PRN, que pregava uma pretensa modernidade, vaga e mal definida.

Disputas entre caciques dividiram as agremiações mais antigas e teoricamente já consolidadas. Foi o caso, por exemplo, do PSDB, de onde saiu Itamar Franco para se integrar na chapa de Fernando Collor.

Na verdade, a impressão que os partidos passam à sociedade é a de não serem mais do que meras siglas, muitas até mesmo de aluguel, onde ideologias, as mais conflitantes e diversas, se acotovelam e findam por se acomodar.

O complemento do tripé que caracteriza a crise nacional é a falta de credibilidade do Poder Executivo, em parte agravada pela própria característica institucional consagrada na Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988 – que por sinal ainda carece, em boa parte de seus dispositivos, da competente legislação complementar que a regulamente.

A nova Carta Magna é, eminentemente, parlamentarista e, no entanto, o regime foi mantido como presidencialista. Nessas circunstâncias, um presidente só teria condições de terminar seu mandato, com relativo sucesso, em duas circunstâncias. A primeira seria a de contar com maioria absoluta no Congresso, que não foi o caso de Collor. A segunda, que fosse um político negociador, como Tancredo Neves por exemplo, com livre trânsito em todos os partidos e habilidade para forjar alianças. Alguém que aliasse ao carisma um raro talento diplomático. Que não se fiasse simplesmente nos 35 milhões de votos obtidos nas urnas e não traísse a confiança depositada pelos eleitores. Evidentemente, este homem nunca chegou a ser Fernando Collor.


(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 8 de outubro de 1992)



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