Monday, March 26, 2018

CRÔNICA DO DIA - Fim da linha


Fim da linha

Pedro J. Bondaczuk


Você é capaz, caro leitor, de identificar o autor deste texto?: “A esperança não será a prova de um sentido oculto da existência, uma coisa que merece que se lute por ela?”. E deste?: “Creio que a verdade é perfeita para a matemática, a química, a filosofia, mas não para a vida. Na vida contam mais a ilusão, a imaginação, o desejo e a esperança”. Ou deste outro?: “A vaidade é um elemento tão sutil da alma humana que a encontramos onde menos se espera, ao lado da bondade, da abnegação, da generosidade”.
Tratam-se de ideias expressas com coragem e com meridiana clareza por alguém afeito a perscrutar a alma humana para compreender o que move o homem, seus anseios, suas angústias, suas dúvidas e contradições. São de Ernesto Sábato, um dos maiores escritores argentinos de todos os tempos – e olhem que a Argentina os produziu e produz em profusão – senão da América Latina e do mundo. E não exagero.
Pois bem, esse intelectual, esse humanista, este libertário convicto chegou ao “fim da linha”, em 30 de abril de 2011, após memorável trajetória literária e sobretudo de vida, de 99 anos. Faltaram, pois, 55 dias para tornar-se centenário, ele que nasceu em 24 de junho de 1911, na cidadezinha de Rojas, na província de Buenos Aires.
Apesar de legar à posteridade uma sólida obra literária, de cerca de 40 livros, Sábato não se constituiu, propriamente, em unanimidade, nem em seu país e nem fora dele. Talvez a razão seja que os que lhe fazem restrições não leram com a devida atenção (ou sequer leram) o que escreveu. Isso acontece com maior frequência do que se possa supor.
Talvez os que não o apreciam tenham interpretado de forma equivocada suas ideias, embora ele as tenha exposto com clareza e sem nenhuma ambiguidade. Por que não?. Sabe-se lá, pois, qual a razão de não apreciá-lo! Da minha parte, coloco-o no mesmo patamar de Jorge Luís Borges, que tenho como meu “guru” espiritual, cujas ideias e colocações exerceram e exercem poderosa influência sobre o que penso e o que escrevo. Ademais, como costumava dizer o saudoso jornalista Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”.
O primeiro livro de Ernesto Sábato foi uma coletânea de artigos de cunho filosófico, intitulado “Nós e o universo”, publicado em 1945. A tônica dessa obra é a crítica da aparente neutralidade moral da ciência. Nela o autor alerta para a desumanização que já estava em andamento nas sociedades tecnológicas.
Seu primeiro romance, publicado em 1948, foi “O túnel”. Nele chama a atenção o esmero na composição dos personagens. Sua obra abrange diversos gêneros da literatura, como contos, romances, novelas e ensaios, com destaque em todos eles.
O curioso é que Ernesto Sábato nem cogitava em ser escritor quando ingressou na universidade. Pretendia ser cientista. Tanto que seu primeiro título acadêmico foi um doutorado em Física, concluído em 1938, na Universidade Nacional de La Plata. Quando criticou, portanto, a adoração da ciência, como se ela fosse um “bezerro de ouro” da atualidade, sabia o que estava dizendo. Tinha pleno conhecimento de causa.
Ernesto Sábato teve que esperar 16 anos para obter o reconhecimento internacional, embora jamais tenha sido cogitado para o Prêmio Nobel de Literatura, por exemplo. Foi reconhecido como um dos maiores escritores do seu tempo só em 1961, com o livro “Sobre heróis e tumbas”. E 13 anos depois, conseguiu a consagração, com um outro romance: “Abandon, o exterminador”.
Se não ganhou o Nobel, conquistou, pelo menos, a maior premiação concedida a escritores de língua espanhola, o Prêmio Cervantes de Literatura, em 1984. Esse ano, com certeza, ele deve ter guardado na memória como sendo muito especial e por uma série de razões. Uma delas foi o convite que recebeu para presidir seleto e ilustre grupo de personalidades e intelectuais que compunham a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, que publicou, ao cabo de seus trabalhos, o memorável relatório “Nunca mais”, com descrições e depoimentos das vítimas e sobreviventes da ditadura militar no período de 1976 a 1983, expondo, em toda a sua crueza, os crimes cruéis, o absurdo genocídio perpetrado contra seu próprio povo pelos ditadores fardados.
Sempre me questionei se viver além da média das outras pessoas é prêmio ou severo castigo. Sou levado, infelizmente, a achar que seja a segunda hipótese. O motivo? Creio que sequer é preciso expor. A visão, por exemplo, não tarda a ficar comprometida e em alguns casos, também a audição. A locomoção transforma-se num pesadelo, drama perigoso, face ao risco constante de quedas, que tendem a trazer duras consequências em termos de sofrimento, quer para a pessoa idosa, quer para a sua família. Pior é quando a memória é afetada e o indivíduo não consegue mais reconhecer nem mesmo os entes mais queridos.
Os últimos anos de vida de Ernesto Sábato foram dos mais sofridos e aflitivos. Primeiro, foi acometido de uma doença nos olhos e, por ordem médica, acabou proibido de fazer o que mais gostava: de ler e de escrever. Imaginem o que isso significa para um escritor! Jorge Luís Borges passou por isso e de forma até pior do que Sábato: ficou cego. Ainda assim, continuou produzindo. Seus “olhos” e suas “mãos”, porém, tiveram um nome: Maria Kodama, a fiel secretária, que fez com que sua vida fosse quase normal até a morte, ocorrida (se não me falha a memória) em 1984, na Suíça.
Sábato, porém, acatou a determinação médica e deixou de ler e de escrever. Mas não deixou de fazer arte, pelo menos enquanto pôde. Dedicou-se aos pincéis e palhetas, ou seja, à pintura. Nos últimos tempos, contudo, parecia ausente do mundo, imerso em mutismo e solidão. Passava semanas, quando não meses, sem falar com ninguém, como que imerso em lembranças. Se pensava em algo ou não, ninguém saberia dizer. Fragilizado, como estava, bastou uma simples bronquite para determinar o seu “fim de linha”.
Nesses momentos de mutismo, vendo a morte se aproximar, é muito provável que tenha constatado o quão verdadeira foi a sua afirmação, anos antes, a propósito da solidão: “Estamos próximos, mas estamos a uma distância incomensurável; estamos próximos, mas estamos sós”. E não estamos?!
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