Monday, May 14, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Violência epidêmica


Violência epidêmica


Pedro J. Bondaczuk

A violência em Campinas, que em 1997 atingiu índices alarmantes, apresenta nestes primeiros dias de 1998 --- período de férias, quando muita gente está fora da cidade --- sintomas de que deverão  repetir, senão ampliar (se algo de eficaz não for feito) os números do ano passado. Homicídios, assaltos à mão armada e furtos geraram um clima de insegurança generalizado, com pessoas temendo até sair às ruas por temor de perder seu patrimônio, quando não a vida.

As vias públicas tornaram-se tão perigosas, a partir de determinada hora da noite, que as próprias autoridades municipais decidiram desligar os "espiões eletrônicos", para não favorecer a abordagem de marginais.

O trânsito igualmente foi violento. Matou, em média, onze pessoas por mês nos entre 80 e 90 acidentes diários. Neste aspecto, existe pelo menos a esperança de que a entrada em vigor, no próximo dia 23, do novo código, melhore essa situação, tirando das ruas os maus motoristas e aplicando punições severas aos infratores.

Muito se escreveu, se falou e se comentou sobre as causas da violência, fenômeno típico das grandes cidades, que em Campinas já se transformou em "epidemia". As mais mencionadas foram a exclusão social, a desagregação da família e em especial o incremento do consumo, e consequente tráfico, de drogas. O uso de crack, por exemplo, dissemina-se entre meninos e meninas com idades cada vez menores. Não é raro encontrar crianças de 8 anos ou até menos consumindo esse veneno, que produz danos, na maioria das vezes irreversíveis, ao cérebro.

Algumas metrópoles, contudo, lograram sucesso no combate à criminalidade, reduzindo os índices a níveis "toleráveis". Foi o caso de Nova York, por exemplo, onde a polícia moveu guerra sem trégua aos traficantes. O prefeito nova-iorquino, Rudolph Giuliani, eleito com a proposta de reduzir a violência na cidade, obteve tanto êxito, que logrou reeleição.

Para tanto, adotou medidas não apenas de caráter policial, mas sobretudo social. No Brasil, esta é a área que menos atenção se dá. Por isso, de ano para ano, aprofunda-se o verdadeiro apartheid dos que são excluídos da cidadania, sem escola, sem qualificação profissional, sem moradia que mereça esse nome, sem emprego e sem perspectiva de futuro.

Estatísticas divulgadas pela Polícia Civil nesta semana revelam a ocorrência de 8.950 assaltos à mão armada em 1997 em Campinas, número que pode ser muito maior, em virtude da subnotificação. Muitas vítimas, descrentes nas autoridades ou temerosas de represálias, preferem arcar com o prejuízo em silêncio. Ainda assim, esse tipo de delito teve um incremento de 44,6% sobre os 6.190 ocorridos em 1996. A média mensal desse crime foi de 745, ou 24,8 por dia ou, pasmem, um por hora!

Os furtos --- praticados sem violência física --- também aumentaram, em 24%, chegando a 9.456, contra 7.625 no ano anterior. Os homicídios chegaram a 399 (em 1996 haviam sido 310), em uma média de mais de um por dia. Quase 9 mil campineiros tiveram veículos furtados em 1997 e um número muito pequeno de vítimas teve a felicidade de recuperá-los.

A violência chegou a tal ponto, que não mais admite medidas simplistas ou meras experiências, tendo a população por cobaia. Exige providências rápidas, inteligentes, eficazes, como as aplicadas, por exemplo, em Nova York, em Los Angeles ou em Chicago. O campineiro paga (e caro) pelo direito à segurança.

(Editorial número um publicado na página 2 do Correio Popular em 18 de janeiro de 1998).



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