Thursday, May 03, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Signo da insegurança


Signo da insegurança


Pedro J. Bondaczuk


O ano recém findo foi marcado pelo signo perverso da violência em Campinas, embora trouxesse, também, coisas boas, tanto individual, quanto coletivamente, como todos os outros por sinal. Afinal, trata-se de uma cidade criativa, de uma metrópole viva, dinâmica, produtiva e com grande tradição cultural, artística e desportiva no Estado e no País.

A coletividade pontepretana, por exemplo, teve a grata surpresa, a felicidade de ver e participar de maneira ativa do retorno do time ao palco principal do futebol brasileiro: a Primeira Divisão.

O campineiro trabalhou, produziu, criou, teve esperanças, alegrias e tristezas. Grandes shows foram apresentados, peças foram encenadas, exposições foram feitas. Se vidas foram suprimidas, outras tantas foram salvas por nossos médicos. Professores ensinaram, operários produziram, a vida seguiu seu curso.

Mas uma sombra pesou sobre a cabeça do campineiro nos 365 dias que passaram. A marca principal, a característica pela qual certamente 1997 será (tristemente) lembrado, foi a insegurança, que predominou nos noticiários da imprensa, que é o espelho da comunidade, refletindo seus comportamentos e maneira de ser.

Estão aí as estatísticas sobre homicídios --- que passaram de 400, com média de mais de um por dia --- para comprovar que a segurança se tornou quase uma ficção na cidade. Foram 400 vidas suprimidas, não importa por qual motivo, já que nada justifica esse ato extremo, terrível, cruel.

Assaltos, roubos de automóveis, sequestros, etc., ajudaram a compor um quadro sombrio e desolador. O trânsito também matou, e muito. E mutilou pessoas, além de trazer enormes prejuízos materiais. Invasões de áreas particulares e públicas ajudaram a aumentar as tensões.

No aspecto de segurança, portanto, o ano foi nitidamente de conflitos, o que desperta a necessidade de um mutirão cívico que possibilite uma mudança. Esta, porém, para ser efetiva, precisa ser consensual, negociada, envolvendo todas as camadas da população e jamais de confronto. A questão da violência não é exclusivamente policial.

Aliás, há um paradoxo enorme em Campinas e no País. De um lado, exige-se mais rigor em relação a determinados delitos, com penas mais amplas e atingindo mais pessoas. De outro, há cadeias e presídios superlotados, focos de rebeliões, cujo número, em 1997, aumentou em 147% em relação a 1996. Seria mais barato e inteligente investir em escolas para não precisar construir mais prisões.

O momento não é para cobranças insensatas e propostas de confronto. É de mobilização, de união de forças, de desarmamento dos espíritos. É necessário atacar as causas, não as consequências, da violência.

Algumas são fartamente conhecidas, como os bolsões de miséria, a crise social, o desemprego, a falta de perspectiva de ampla faixa da população, o tráfico e consumo de drogas, as crianças abandonadas e sobretudo, a deficiência na educação.

Embora graves, nossos problemas têm solução. O sociólogo alemão Ralf Daherendorf, em conferência que pronunciou na entrega do Prêmio Arnold Toynbee, no Saint Anthony's College, em Oxford, em 20 de outubro de 1990, observou: "O conflito é o grande estímulo à mudança, e nossa tarefa, em um mundo no qual a mudança é a única esperança, é domesticar o conflito, por meio de normas e da constituição da liberdade". Domestiquemo-lo, pois, para transformar 1998 no ano da segurança e do entendimento.

(Editorial número um, publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 1 de janeiro de 1998).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

No comments: