Saturday, February 27, 2016

Dívida é tema secundário



Pedro J. Bondaczuk


A reunião de cúpula dos países considerados as maiores democracias industriais do Planeta (à exceção da União Soviética), que começa amanhã, em Tóquio, teve que mudar, na véspera do seu início, por duas vezes, o principal assunto de sua pauta deste ano, tal foi a velocidade dos acontecimentos do mês de abril. A princípio, o foco do temário deveria concentrar-se na economia (teoricamente, o motivo central desses encontros anuais dos principais aliados norte-americanos).

Mas nessa área, apesar de persistirem algumas dificuldades de relacionamento entre os membros desse ultra-seleto clube dos ricos, que a rigor dita a política a ser seguida pelo restante do mundo, o panorama, no geral, é dos melhores. Para eles, evidentemente...Raramente a fase esteve tão propícia aos Estados Unidos, Japão, Alemanha Ocidental, Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá quanto agora, diante da queda dos preços internacionais do petróleo.

Contudo, no plano político, as coisas não parecem tão tranqüilas assim. E será esse o aspecto predominante nas conversações dos sete grandes. Em princípio, o terrorismo estava previsto para ocupar o topo da pauta, especialmente após o bombardeio norte-americano do dia 15 de abril passado, às cidades líbias de Tripoli e Benghazi, operação que causou um indisfarçável mal-estar em muitos parceiros de Washington nesse seleto clube. Afinal, as decantadas provas que a Casa Branca apregoou aos quatro ventos possuir, sobre o patrocínio do líder da Líbia, coronel Muammar Khadafy, a diversas entidades terroristas, jamais foram exibidas para ninguém.

O que se fez foi apresentar em público uma série de generalidades e de suspeitos testemunhos a respeito, gerando uma fortíssima oposição na opinião pública internacional, quanto a essa perigosa "diplomacia dos mísseis" inaugurada por Ronald Reagan.

Entretanto, quando parecia perfeitamente definido que esse seria o assunto dominante na reunião de cúpula, eis que um acidente gravíssimo, cujas proporções ainda estão muito distantes de terem sido delimitadas, ocorreu na União Soviética. Mais do que o desastre, a atitude do Cremlin, omitindo a ocorrência, procurando esconder o fato com uma cortina de meias-verdades e de ostensivas mentiras, impedindo que seus vizinhos tomassem medidas acauteladoras contra uma nuvem radiativa procedente de Chernobyl, tirou o sono desses seletos comparsas. Por isso, a catástrofe verificada na Ucrânia certamente ganhará as honras de transformar-se em "vedete" dos debates. Isso se até amanhã alco de pior não acontecer. Nunca se sabe.

Em todos os onze anos anteriores desses encontros de cúpula, os acontecimentos do mês de abril têm sido os determinantes do seu temário político. Em 1980, o cativeiro dos diplomatas norte-americanos no Irã e a invasão soviética ao Afeganistão foram os assuntos predominantes. Foi certamente da reunião dos ricos de então que emergiu a decisão, tomada a contragosto pela maioria dos aliados, de boicote ao Irã.

No ano seguinte, os sandinistas foram pela primeira vez os vilões. Em 1982, foi a vez dos argentinos ficarem na "berlinda", por causa da invasão às Ilhas Malvinas. O assunto "apavorante" de 1983 foi a ameaça dos endividados de darem um calote nos grandes agiotas internacionais, acabando com uma cômoda fonte de renda deles.

No ano seguinte, o terror ocupou lugar de destaque. Afinal, poucos dias antes Margaret Thatcher havia escapado por autêntico milagre de uma bomba dos extremistas da Irlanda do Norte. O ano passado foi dedicado a "espinafrar" Daniel Ortega e os sandinistas que na véspera haviam sido punidos com sanções econômicas norte-americanas.

Se persistir a lógica, da reunião que começa amanhã, e se completa segunda e terça-feira, certamente sairá um documento exigindo que os países dotados de usinas nucleares firmem um tratado obrigando a comunicação imediata aos vizinhos quando da ocorrência de acidentes como o verificado em Chernobyl. Pode, também, ser definido um boicote mais severo contra Khadafy, a exemplo do assumido contra o Irã em 1980. E finalmente, a respeito da dívida externa do Terceiro Mundo, originalmente o assunto mais importante do temário inicial, é possível que uma ou outra medida de alívio, meramente paliativa, (como já virou costume), seja tomada. Mas na essência, a questão deverá ficar como está, pelo menos até que numa oportunidade mais calma possa merecer a atenção que sempre deveria ter. Até lá...

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 3 de maio de 1986)


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