Monday, January 30, 2017

Pacificador ou Anticristo?


Pedro J. Bondaczuk


O presidente soviético, Mikhail Gorbachev, experimentou, ontem, em Bonn, mais uma vez, o lado agradável da “glasnost” e da “perestroika”, ou seja, a enorme popularidade que goza fora do seu país. Na URSS, no entanto, às voltas com uma máquina burocrática pesadona e ineficiente e com a escassez de quase tudo (até sabonete está faltando por lá), sua performance não chega a ser tão brilhante. Em parte também pelo preconceito que os russos têm contra sua mulher, Raisa. Justamente uma das coisas que o tornam mais “charmoso” junto aos meios de comunicação ocidentais.

Nos últimos tempos, a espetacular recepção que o líder do Cremlin recebeu na capital germânica, com várias gradações de entusiasmo, tem se repetido em todas as partes que ele vai. Foi assim quando esteve nos Estados Unidos, por exemplo. Repetiu-se na Grã-Bretanha, em Cuba, na Polônia. E culminou com a ovação que recebeu em Pequim e em Xangai dos chineses.

No entanto, sua popularidade confere-lhe uma responsabilidade dobrada. Ela é fruto da mensagem que Gorbachev vem pregando desde que assumiu a liderança soviética. Das suas ações, tendentes a liberalizar a vida do seu próprio povo, promover o desarmamento internacional e procurar o entendimento mundial. Ou seja, permitir uma convivência civilizada e até construtiva entre pessoas que pensam de maneiras diferentes.

Imagine, agora, o leitor se tudo o que o presidente soviético vem prometendo não passar de mera retórica. Nós, particularmente, temos prevenção contra líderes carismáticos. Em geral, conforme a história dos povos registra, eles têm sido causas de grandes tragédias. E Gorbachev tem carisma.

Ocorre que Adolf Hitler também tinha. E o homem forte da China, Deng Xiaoping, também dispunha desse magnetismo, desse poder de despertar confiança e comandar multidões. O “füherer” germânico conduziu sua nação ao maior desastre de sua história, ensangüentando as suas páginas e enchendo-as de terror e de maldade.

O dirigente chinês, por seu turno, acaba de revelar-se um “ídolo com pés de barro”, após ter ordenado o estúpido massacre da Praça da Paz Celestial. Por isso, temos prevenção contra líderes carismáticos. O papel de liderança, em nível mundial, que Gorbachev vem assumindo a cada dia que passa se torna mais decisivo. Ao final, ao contrário de Hitler e de Deng, ele tem em suas mãos o poder de vida e de morte da humanidade, mediante o monstruosamente dimensionado arsenal nuclear, capaz de, sozinho, destruir cerca de 50 planetas do tamanho da Terra. Os Estados Unidos possuem a outra metade. Seria ele o arauto da paz ou o temido “Anticristo” das profecias de Nostradamus?

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 14 de junho de 1989).


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