Sunday, January 29, 2017

Boneca de pano


Pedro J. Bondaczuk

O escritor fluminense (natural da cidade de Piraí, no Rio de Janeiro), Edir Araujo, aos 56 anos de idade (completados em 14 de junho de 2016), lançou, recentemente, seu terceiro livro, intitulado “Boneca de pano”. Os dois anteriores foram “A passagem dos cometas” (2012) e “Risos e lágrimas” (2013).  Sabe-se que um terceiro (“Fulana”) está em fase de conclusão, que deverá vir a lume muito brevemente. Que venha mesmo! Embora “Boneca de pano” seja um romance, e, portanto, obra de ficção, trata de um tema para lá de atual, que vem freqüentando o noticiário de imprensa com bastante constância: o estupro, no caso, praticado contra uma adolescente, o que, portanto, caracteriza, também, mais um crime bastante praticado (no País e no mundo): o de pedofilia. Milhares e milhares de meninas brasileiras, boa parte das quais sequer entrou na fase de adolescência, são forçadas, em muitos casos pelos próprios pais, a se prostituir, em decorrência da ignorância e da miséria. O leitor, certamente, já ouviu falar, ou já testemunhou, o tal do “turismo sexual”, que nos envergonha e humilha (ou deveria nos envergonhar e humilhar).

O livro de Edir não trata, especificamente, desse assunto. Mas induz, igualmente, a uma madura reflexão a respeito. No caso específico de “Boneca de pano”, a vítima, a personagem Samantha, provém de família bem estruturada e com boa condição financei8ra e social. O pai é um pecuarista. O drama da garotinha tem início no dia exato em que completa seu décimo quinto aniversário.  Julgando-se adulta, embora, claro, não sendo, pegou, sem ordem do pai, uma velha picape Ford, ano de 1952, pertencente ao avô, para dar “uma voltinha”. Por uma dessas circunstâncias imprevisíveis, o pneu do veículo furou. A menina achou que saberia trocá-lo. Estacionou, em um lugar ermo e, quando se preparava para fazer a troca, foi surpreendida por alguém, que provavelmente estava à espreita, que a seqüestrou. Aí começa seu drama, que iria mudar por completo, e para sempre, os rumos da sua vida.

Uma das peculiaridades do romance é que ele não tem diálogos. O caso é todo narrado, do início ao fim, por Samantha, na primeira pessoa, o que Edir faz com extrema habilidade. A personagem descreve não apenas o horror que viveu, nos 82 dias de cativeiro, mas, sobretudo, o que pensou e o que sentiu, durante e na sequência de sua terrível provação. O trauma causado pelos abusos a que foi submetida, deixou-lhe marcas psicológicas profundas e permanentes, das quais conseguiu se recuperar (mas jamais esquecer), apenas, aos 60 anos, quando finalmente encontrou seu par ideal e deixou de “sentir nojo pelos homens”. Antes disso,  passou por toda escala de degradação, como alcoolismo, uso de drogas e prostituição, no afã (inútil) de apagar sua terrível experiência. Samantha só escapou do cativeiro, livrando-se da covarde exploração sexual do pedófilo – um homem por volta dos cinqüenta anos de idade – quando este morreu, vítima de um mal súbito.

E o que “bonecas de pano” têm a ver com a história? Têm tudo a ver. Uma das manias do desequilibrado era brincar com bonecas. Tinha três, que ele chamava por Mariquinha, Chiquinha... e Rosinha. Ocorre que apenas as duas primeiras eram de pano. A terceira, que ele fazia questão de chamar de Rosinha, era a infeliz Samantha. Fica implícito que as outras duas representavam garotas outrora vivas, como ela, que o tarado, provavelmente, havia assassinado e se livrado dos corpos. Embora tratando, posto que ficcionalmente, de um tema tão penoso, “Boneca de pano” é um livro não somente para ser lido, como romance que é, mas, sobretudo, para ser refletido, por tratar de um assunto onipresente em nossa sociedade. Aborda uma situação a que nossas meninas (filhas, netas, sobrinhas etc.) estão sujeitas o tempo todo.

Edir, através dos pensamentos e da narrativa de Samantha, aborda a forma distorcida, preconceituosa e doentia, como a sociedade trata a mulher, e isso desde que há registro do comportamento humano, pelo menos dois milênios e meio atrás. Muitos (e põe muitos nisso!) veem na figura feminina “apenas” um pedaço de carne para saciar seus desejos e não o ser humano que deveriam enxergar. Não é errado, óbvio, um homem desejar uma mulher. Isso é até instintivo (er vice-versa). Desde que, porém (e isso é essencial) esse desejo seja um complemento do amor em seu verdadeiro sentido, que também implica em sexo, mas como corolário de algo muito mais profundo e transcendental, que envolve carinho, respeito, cumplicidade etc,etc.etc. Lembro-me de uma declaração de Machado de Assis que diz que o ato sexual deveria ter tratamento como se fosse uma oração, por parte dos dois parceiros. Por que? Por razões óbvias, que o tal do Homo Sapiens (ou boa parte deles) ainda não logrou entender.  Por se tratar da maior realização de um casal que se ama, que é a geração de uma nova vida. Há algo de mais sagrado, que implique em maior responsabilidade, do que isso? O que?!!!

Para resumir a emoção que o livro de Edir Araújo me despertou, peço licença para reproduzir dois parágrafos da crônica “Beleza maculada” que escrevi em 2010 (portanto, bastante anterior a esse realístico romance), mas que expressa a caráter meu sentimento após a leitura de “Boneca de pano”:

“A natureza cria o belo e o bom para o deleite de quem sabe apreciar essas virtudes. O homem, todavia, se excede no usufruto desses bens naturais e macula, corrompe e destrói a ambos e não raro sequer sabe por que age dessa maneira. Seria por instinto? Seria por ignorância? Seria por desvio de conduta? Ou por doença mental?  Pode ser por alguma dessas causas ou por todas elas simultaneamente. Ou até por nenhuma. Vá se saber! Nada me causa maior asco e revolta do que testemunhar, por exemplo, a maculação da beleza por parte de quem não só não sabe apreciá-la e valorizá-la, mas, de quebra, age com vandalismo e fúria contra ela e sem nenhuma razão.

Considero, por exemplo, o pior dos crimes que possam ser cometidos a exploração sexual de crianças. O pedófilo e o estuprador (de meninas e de meninos) cometem os que, para mim, são delitos sem perdão. Aliás, os próprios marginais, presos por outras violações às leis como furtos, roubos e homicídios, abominam essa conduta. Os delinqüentes têm um código de honra próprio. E os pedófilos e estupradores têm vida curta quando caem em presídios e cadeias. Não defendo, óbvio, esse comportamento. Mas sou a favor de que esses tarados e sociopatas sejam segregados da sociedade e se possível preventivamente, antes que cometam delitos (...)”      


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

1 comment:

EDIR ARAUJO - ESCRITOR ARAUJO said...

Fico-lhe muito grato, amigo!