Sunday, July 24, 2016

Ouro que não reluz



Pedro J. Bondaczuk


A atividade de garimpo no Brasil, da maneira como está dimensionada, só traz problemas para o País, sem apresentar qualquer vantagem à população. A produção de ouro dos 1.800 locais de garimpagem espalhados, por exemplo, pela Amazônia legal e outras regiões, não está sob o controle do governo. E dificilmente poderia estar, dada a extensão da área explorada e as dificuldades naturais existentes numa selva.

O Departamento Nacional de Produção Mineral estima que entre janeiro e julho deste ano, foram produzidas 153,2 toneladas do metal. Todavia, se 10% dessa quantidade entraram no cômputo oficial, foram muito. A maior parte dessa riqueza acaba sendo surrupiada dos brasileiros através do contrabando. Fica claro, portanto, que o País não lucra nada com o garimpo.

Por outro lado, os garimpeiros, sujeitos a toda a sorte de privações, arriscados a contrair malária e outras tantas doenças tropicais, ao confronto com os índios e a todos os perigos imagináveis, naturais a uma selva, além da intoxicação quase sempre mortal pelo mercúrio, também não auferem vantagens. Vivem o sonho da fortuna fácil, que em pouco tempo acaba se transformando em pesadelo e até em morte para muitos e muitos deles.

Quem lucra, então, com o garimpo? São os donos do equipamento, em geral de São Paulo e do Rio de Janeiro, que apenas se deslocam para a selva para contabilizar os seus ganhos. Enquanto isso, tribos outrora orgulhosas e saudáveis, entram num processo de rápida deterioração, correndo riscos iminentes de extinção, como é o caso específico dos ianomâmis.

Porções consideráveis da floresta são postas abaixo, de forma desordenada e caótica, contribuindo para o fim de uma das maiores reservas do Planeta. Rios repletos de peixes são contaminados pelo mercúrio, às vezes de forma até irreversível, ameaçando, sabe-se lá, quantos.

E tudo isso para quê? Para que um punhado de maus brasileiros, indiferente ao destino de seus semelhantes e de seu país, lucrem, tirando miraculosos tesouros do patrimônio comum de toda a população. Ainda se o ouro extraído fosse parar no Banco Central, para aumentar as reservas nacionais do metal, com tudo o que a atividade tem de perniciosa, ainda seria tolerável. Mas sabe-se lá quais negócios essa fortuna, que custa a desgraça de tanta gente, acaba por financiar!

Suspeita-se, inclusive, que o precioso metal desses garimpos acaba indo parar nas mãos de narcotraficantes, para ajudar a consolidar o império do mal que eles querem implantar no extremo Norte do nosso continente. É preciso, pois, mobilizar esforços para pôr fim a essa rapina, que não interessa, evidentemente, à grande maioria da população.    

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 12 de agosto de 1990)


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk       

No comments: