Wednesday, July 06, 2016

Aberta a temporada de seqüestros de aviões


Pedro J. Bondaczuk


Os seqüestros de aviões, como o ocorrido na sexta-feira da semana passada com o Boeing 727 da empresa norte-americana TWA, no espaço aéreo da Grécia, que fazia o vôo 847 entre Atenas e Roma, são fenômenos corriqueiros nesta época do ano. E isto uma explicação bastante simples e lógica.

Este período marca o final da Primavera e início do Verão no Hemisfério Norte, ocasião em que a enorme indústria do turismo se reativa. E cidadãos norte-americanos e europeus se dispõem a gastar, a partir de junho, os dólares acumulados muitas vezes durante todo o ano. Se o leitor observar bem, verá que tivemos fatos semelhantes em 1984, 1983, etc. E as ocorrências se dão sempre ao sabor das grandes questões políticas de ocasião.

No ano passado, por exemplo, o caso mais quente das manchetes em fins de junho e princípios de julho era a invasão do Exército indiano ao Templo Dourado dos sikhs, na cidade de Amritsar, Estado do Punjab. Para vingar tal incursão, os membros dessa seita seqüestraram, no dia 14 de julho, um Airbus A-300 da Indian Airlines, com 264 pessoas a bordo, desviando-o para o Paquistão.

Após tensas negociações (como sempre acontece, compreesivelmente, em tais casos), tudo terminaria bem no dia seguinte. Como a maioria dos seqüestros. A questão libanesa, também, forneceu fartas desculpas para a prática desses atos de pirataria internacional, assim como a guerra do Golfo Pérsico.

No dia 21 de julho, por exemplo, os 140 passageiros de um jato da Midle East Airlines passaram pelo dissabor de serem reféns, apenas porque um libanês cismou que, com seu gesto terrorista, poderia forçar Israel a sair do Sul do Líbano.

No dia 1º de agosto era a vez dos iranianos darem o seu showzinho, ocupado, à força, um Boeing 737, no trajeto Frankfurt-Paris, aparelho este pertencente à Air France. A empresa francesa teria menos sorte do que outras, que tiveram seus aparelhos seqüestrados. A caríssima aeronave voaria pelos ares, mas mediante uma explosão, no aeroporto de Teerã, dois dias depois.

No dia 8 de agosto, peregrinos muçulmanos, que iam para Meca, teriam o dissabor de ver a cidade santa errada, indo parar, repentinamente, em Roma, quando um adversário do aiatolá Khomeini resolveu escapulir do Irã.

Os norte-americanos, a exemplo do que vem ocorrendo no presente caso (do Boeing da TWA) não escapariam a esse gostinho de aventura para contarem depois aos seus netos. Passariam pela experiência de serem reféns, no dia 8 de dezembro, no interior de um Airbus A-300 do Kuwait, que tinha o destino do Paquistão, mas que acabou, por obra e graça da “Jihad Islâmica”, indo parar no perigoso Aeroporto de Mehrabad, em Teerã.

Dois cidadãos norte-americanos seriam assassinados na oportunidade e vários outros, teriam a infelicidade de ser barbaramente espancados. Observe o leitor que em nenhum desses seqüestros o aeroporto de Atenas esteve envolvido.

Por isso, não se compreende o motivo do presidente Ronald Reagan estar aconselhando os cidadãos do seu país a evitarem a descida na capital grega, exatamente no período melhor do ano para o turismo. Que aa Casa Branca esteja irritada com o povo desse país, por este ter outorgado, nas urnas, uma vitória expressiva aos socialistas, nas recentes eleições parlamentares, ainda se compreende. Mas afirmar que o aeroporto de Atenas é uma grande zona de risco para seqüestros, chega a soar como pilhéria.

Qual não é, no período de temporada de caça? O de Frankfurt, o de Paris, o de Roma, o do Kuwait? Os fatos desmentem isso. O apelo de Reagan só pode ser entendido como um recado ao gabinete de Andréas Papandreou, para que pare de exigir a retirada das bases norte-americanas da Grécia. Só que, dado o equívoco da estratégia, e sua inoportunidade, o tiro pode acabar saindo pela culatra.

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 21 de junho de 1985).


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