Monday, December 28, 2015

Os apuros de um agente duplo


Pedro J. Bondaczuk

A ronda da noite” é o segundo “pequeno-grande” livro de Patrick Modiano que acabo de ler e sobre o qual me proponho a tecer alguns comentários, nessa “overdose” literária que imponho, enfocando o estilo e a obra do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2014. Esclareço que o qualificativo “pequeno” está longe de ser, no caso, depreciativo. Refere-se, somente, à extensão desse volume, de apenas 128 espicaçantes e atrativas páginas, um primor de escrita sintética e econômica. Já o “grande” pode (e deve) ser aplicado à genialidade com que esse escritor explora um tema tão complicado, como o que explorou. Põe complicação nisso!!!!

“A ronda da noite”, que a editora Rocco publicou nos anos 80 do século passado, quando Modiano era praticamente desconhecido até mesmo na França, foi relançado, recentemente, por ela, em uma edição primorosa, caprichada, muito bem cuidada e atrativa. Foi, todavia, apenas o segundo livro da carreira do escritor, lançado na França em 1969. Fez parte da chamada “Trilogia da Ocupação”, cujo primeiro volume foi seu romance de estréia, “La Place de l’Étoile”(1968) e complementada por “Les boulevards de ceinture” (1972).   Ganha, pois, maior importância, porquanto o leitor poderá notar, comparando com sua produção posterior, sobretudo a mais recente, a coerência de Modiano no trato de um mesmíssimo tema, e com estilo que ainda pouco mudou (ou não mudou coisa alguma), sem se mostrar, em momento algum, repetitivo e nem óbvio.

O enredo de “A ronda da noite” se passa numa França ocupada (como a imensa maioria de suas narrativas) durante a Segunda Guerra Mundial. A história é contada por um jovem narrador anônimo, que conta como era sua vida de agente duplo. Imaginem o que era na época um francês ser, simultaneamente, informante da Gestapo, a cruel e perversa polícia alemã, e da Resistência, grupo que arriscava a vida para libertar o país e que, obviamente, não admitia traidores! Na vida real, geralmente por razões de tentar preservar a vida, houve várias pessoas que trabalharam para os invasores, denunciando, em alguns casos, até parentes, para livrarem a própria pele. Quando descobertos pelos resistentes, óbvio, eram mortos sem a menor piedade. Vários agentes franceses da Gestapo foram julgados por traição, após a libertação da França em 1944, condenados pelos tribunais e, em seguida, executados por pelotões de fuzilamento.

Houve, por outro lado, muitos que prestaram inestimáveis serviços à Resistência, fornecendo informações preciosas sobre posições militares nazistas, posteriormente atacadas e destruídas pelos patriotas. Quando descobertos... obviamente eram, executados pela Gestapo. E muitos e muitos o foram. Imaginem, pois, os riscos de um agente duplo, em permanente corda-bamba, podendo ser descoberto a qualquer momento, por um ou por outro lado, e imediatamente eliminado!

É o caso do personagem central de “A ronda da noite”, o tal narrador anônimo, criado por Modiano. Esse agente duplo sente-se encurralado pela encrenca em que ele próprio se meteu e da qual não sabia como se safar.  Como francês, sentia-se culpado por trair a pátria, embora encontrasse (ou buscasse encontrar) justificativas para o que fazia. Era, porém, tentativa vã de justificar o injustificável para aplacar a consciência.

O agente duplo justificava, mas para si mesmo, que estava arriscando a vida não propriamente em proveito próprio, por medo ou por covardia, mas para proteger duas pessoas, no caso Coco Lacour e Esmeralda. No fundo da mente, porém, sabia que isso não explicava e muito menos justificava a traição. Ao longo da narrativa, Modiano nos apresenta personagens (um tanto caricaturados) de franceses que não estavam nem aí para o sofrimento e a humilhação da população, dos seus conterrâneos e até mesmo de seus parentes. Queriam somente gozar a vida o quanto pudessem, indiferentes à situação política da França. São os casos, entre outros, do senhor Philibert, de Khédive, de Méthode e de outros tantos personagens, que buscavam comer e beber do bom e do melhor, indiferentes a quanto isso custava. Promoviam orgias fenomenais, dessas de fazer inveja aos adoradores de Baco, enquanto o país definhava e quase agonizava.

A história de Modiano baseia-se no caso real dos colaboracionistas Henri Lafont e Pierre Bonny. Ambos não escaparam impunes da traição que cometeram. Foram denunciados, após a libertação da França, julgados, condenados e fuzilados em dezembro de 1944. O ganhador do Nobel de Literatura de 2014, todavia, traz temas tão penosos aos franceses não por espírito revanchista, para exigir punição de infratores que tenham escapado impunes, como possa parecer. É mais uma tentativa que faz de entender o que motivou as pessoas a agirem como agiram para, se possível, perdoá-las e, para só então, poder esquecer de vez aquele tão dramático (e para muitos, vergonhoso) período. Pelo menos esta é a impressão que me fica dos seus livros. É como Modiano escreveu sobre um de seus personagens: “É o seu jeito de lutar contra a indiferença e o anonimato das grandes cidades, e também contra as incertezas da vida”. Trazer o passado à tona é a maneira, do ganhador do Nobel de Literatura de 2014, de lutar contra a indiferença e contra as incertezas da vida.


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