Thursday, December 24, 2015

Esgrimindo como espadachim


Pedro J. Bondaczuk


O líder soviético, Mikhail Gorbachev, na recém concluída visita de 40 horas que fez  à Grã-Bretanha, mostrou, mais uma vez, para aqueles que ainda duvidavam, o seu extraordinário talento diplomático. Mais do que isso, como um hábil jogador de xadrez, deu um autêntico “xeque mate” no presidente norte-americano, George Bush, acusado internamente de imobilismo político e que já vem gerando também desconforto a seus aliados europeus por não ter assumido, até aqui, uma posição enérgica, ou pelo menos clara, face ao novo cenário estratégico que se desenha no mundo.

Alguns analistas entendem que o mandatário dos estados Unidos esteja reservando a munição para a reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte, que está marcada para o fim do próximo mês, em Bruxelas.

Gorbachev, todavia, com uma grande capacidade de previsão e explorando habilmente algumas divisões que se manifestam no seio da Otan, já começou a “jogar areia” nas engrenagens da aliança ocidental, principalmente no que se refere à modernização do seu arsenal nuclear de curto alcance.

Esgrimindo argumentos com uma habilidade de espadachim, primeiro ele anunciou uma outra concessão unilateral – inócua, por sinal – ou seja, a suspensão da produção de urânio para a fabricação de bombas. Ele só não disse que possui estoque desse elemento para muitos anos.

A seguir, desferiu o golpe contundente contra a unidade da organização européia, ao assegurar que qualquer ação do continente no sentido de modernizar seus mísseis, encontrará a recíproca soviética.

A mensagem, certamente, foi dirigida à Alemanha Ocidental e à França, que em momento algum esconderam a sua oposição à proposta de Bush. Em todos os seus pronunciamentos na Grã-Bretanha, por outro lado, Gorbachev procurou insinuar, posto que sutilmente, os vacilos e indecisões do presidente norte-americano.

Com isso, está buscando isolar os Estados Unidos dos seus aliados europeus, aproveitando um momento de incerteza em que a política externa de “Tio Sam” ainda está para ser definida. Mesmo a acalorada discussão que manteve com a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, teve um significado positivo para o líder do Cremlin.

Deu a entender que ele está disposto a encarar as divergências que tem com ela, com franqueza, sem meios tons, ao contrário do que era costume dos seus antecessores. Com isso, parece ter ampliado a confiança dos ingleses – desconfiados por natureza – na sua sinceridade de propósitos.

Conseguiu, até mesmo, que a rainha Elizabeth II aceitasse um convite para visitar seu país, embora isso não possa ocorrer antes de dois anos. Portanto, embora do ponto de vista publicitário esta viagem não tenha sido das mais brilhantes, diplomaticamente pode ter significado um êxito retumbante para os propósitos do presidente soviético.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 8 de abril de 1989).


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