Thursday, June 27, 2013

Somos produtos da educação

Pedro J. Bondaczuk

A mente humana é complexa e fascinante. Creio que seja a estrutura mais perfeita que existe na natureza, a despeito de suas eventuais falhas e desvios. Se não for, está muito próxima dessa perfeição. Muitos comparam-na a um computador de última geração Discordo, todavia, dessa comparação. Em muitos aspectos, a máquina – por sinal criada pelo homem – supera-o, é verdade, no que diz respeito a processamento de dados, trabalho que executa com uma rapidez e exatidão impossível do cérebro humano de igualar. Todavia, para que funcione, tem que ser abastecida de informações. É incapaz de se auto-abastecer. E quem abastece a máquina? É justamente quem a criou para facilitar e racionalizar tarefas: o homem.

Ademais, o computador não pensa, não sente, não se emociona e é incapaz de criar seja o que for. Daí discordar de quem tenta emprestar ares de “superioridade” à criação em relação ao criador. Este é e sempre será superior por motivos para lá de óbvios. É questão de lógica. O sociólogo do renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Sherry Turkle, afirmou, certa feita, em entrevista: “Onde já fomos animais racionais, agora somos computadores que sentem, máquinas emocionais”. Ou seja, algumas mentes privilegiadas chegaram perto dessa rapidíssima processadora de dados. É certo que ainda estão muitíssimo distantes de igualarem sua rapidez. Todavia, ampliam, cada vez mais, sua vantagem, nem um pouco desprezível: a prerrogativa de “sentir”.   

Sigmund Freud, em seus estudos da racionalidade humana – e de seus desvios, ou seja, da irracionalidade – identificou, (recapitulemos, mais uma vez o que já refletimos juntos até aqui para não perdermos o fio da meada),  três níveis de consciência. Denominou-os, como já informei e reitero, de “ID”, “Ego” e “Superego”. Na sequência, resumi no que consiste esse primeiro substrato.

Em poucas palavras, é, de acordo com Freud, a fonte de energia psíquica, que se pode chamar de “libido”. É completamente inconsciente. Caracteriza-se pelos impulsos, motivações e desejos mais primitivos e selvagens do ser humano. É nesse substrato que se localizam as pulsões de vida e de morte. É irracional. Não faz planos, não espera, não admite frustrações e não tem nenhuma inibição. Funciona, exclusivamente, tendo por objetivos a busca do prazer (não importa por quais meios) e a fuga da dor.

Vimos que o nível seguinte da consciência que Freud identificou é o “Ego” (em alemão, “ich” ou eu). Constatamos que ele se desenvolve a partir do ID e que atua como uma espécie de censor deste. Define se os impulsos e desejos irracionais e instintivos são factíveis ou não, se são positivos ou destrutivos (da própria pessoa e de terceiros), de acordo com o mundo externo, ou seja, com o “princípio da realidade”.
Pois bem, Freud identificou um terceiro substrato da consciência que batizou de “Superego” (do alemão überich, ou seja, “supereu”). E o que vem a ser essa estrutura que, pela própria denominação que recebeu, sugere que é superior às duas outras? É a parte moral da mente humana. É a que determina e transmite às sucessivas gerações os valores e padrões de comportamento, tidos como adequados que recebemos dos pais, educadores e da sociedade. É, sem tirar e nem pôr, o fundamento, a base, o alicerce do que convencionamos chamar de civilização.

Freud dividiu-o em dois subsistemas: “Ego Ideal” e “Consciência moral”. O primeiro é o que dita o bem que devemos procurar, de acordo com as idéias que nos foram incutidas pelos que nos educaram. O segundo, por seu turno, determina o mal que devemos evitar. O “Superego” tem três objetivos, simultâneos e integrados. O primeiro é o de inibir qualquer impulso, ditado pelo ID (inconsciente e selvagem), que seja contrário às regras e ideais por ele ditados. Por exemplo, quando estamos com fome, nossos instintos nos impulsionam a obter o alimento a qualquer custo, sem atentar para meios e conseqüências. O “Superego”, todavia, mobiliza o “Ego” para viabilizar, sim, sua obtenção, mas pelos métodos civilizados, ou seja, através da sua aquisição, produzindo-o, comprando-o ou o ganhando. Seus instrumentos de coação são a punição, em caso de agirmos de forma contrária às leis e à moral e outro, mais sutil, mas provavelmente mais eficaz: o sentimento de culpa, ou remorso.

O segundo objetivo do Superego é forçar o Ego a se comportar de maneira moral. E por que essa atuação sobre o Ego especificamente? Porque é ele que analisa a viabilidade dos desejos do ID, de acordo com a realidade, e os satisfaz ou não. O “Superego”, portanto, atua como implacável árbitro do comportamento que trazemos dentro de nós, em nossa mente, policiando todos nossos atos e desejos. Daí Freud ter concluído (e creio que foi uma conclusão equivocada e infeliz) que a civilização, com suas normas e regras de comportamento, impede, na maior parte das vezes, que o homem seja plenamente feliz. Oportunamente, apresentarei argumentos justificando essa discordância.

Finalmente, o terceiro objetivo do “Superego” depende da qualidade e da extensão da educação que recebemos. É mais sofisticado, refinado e exclusivo do que os dois anteriores. É o de conduzir o indivíduo (nós todos, em suma) a buscar a perfeição, por ações, pensamentos e palavras. Convenhamos, não são todos (diria que são poucos) os que têm o  “Superego” tão desenvolvido a esse ponto. Esse objetivo é conhecido, também, como “Ego Ideal”.

Esse nível de consciência, conforme a teoria de Freud, teria surgido, no homem primitivo, em decorrência do “Complexo de Édipo" (no homem) e do seu correspondente feminino, o “Complexo de Electra”. E o que vem a ser esse desvio (quando exacerbado, posto que, atenuadamente, todos o temos em alguma medida). É um antagonismo latente contra o pai (que em casos extremos deriva para o ódio), ditado pelo ciúme dele por supostamente ele competir conosco pela nossa fonte primária de prazer, a mãe. Supõe-se que no homem primitivo esse desejo pela mulher que nos deu a vida era carnal, sexual, já que ele seria movido exclusivamente pelo ID. Aí teria se dado, justamente, a primeira censura moral, que é o papel primordial do Superego, através do tabu de que o incesto era errado. Os psicopatas, aliás, (alguns deles) agem, ainda, como o homem primitivo. Têm um ID dominante e um superego muito reduzido, o que lhes tolhe o remorso, sobressaindo a falta de consciência moral.

Édipo, para quem não se lembra, é aquele personagem mitológico que matou o pai, Laio, para casar-se com a mãe, Jocasta. Electra, por sua vez, é outra figura mítica, da rica mitologia grega. Conforme a lenda, foi ela que incitou o irmão Orestes a assassinar a própria mãe, Clitemnestra, para vingar-se do pai, Agamenom, de quem tinha ciúmes.

O Superego, é mister observar, nem sempre é consciente. Muitos valores e ideais podem ser despercebidos pelo eu consciente. Mas é sempre moral. Conclui-se, do exposto, que somos todos produtos da educação (ou da falta dela), em nosso comportamento social, com o Superego mais ou menos desenvolvido, de acordo com os princípios que nos foram incutidos e a forma como isso foi feito.


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