Thursday, June 06, 2013

Atração de um país é seu povo

  
Pedro J. Bondaczuk


O historiador norte-americano Paul Kennedy constatou que “a maior atração turística de um país é a qualidade de vida de seus habitantes”. Não são, portanto, as paisagens maravilhosas, os museus com seu rico acervo cultural, os hotéis cinco estrelas com serviço refinado e nem os costumes exóticos que atraem visitantes.

Daí o Brasil de hoje, mergulhado numa miséria ditada mais pelo egoísmo e pela ausência de uma visão correta de nacionalidade do que pela falta de recursos, não ser tão atrativo quanto foi em passado ainda recente. Os desníveis de renda dos brasileiros chocam profundamente os que têm um mínimo de sensibilidade. E ninguém deixa seu país, numas férias, para se aborrecer.

O que mais revolta o estrangeiro que passa por aqui não é, como muitos acham, a violência, até porque esta é uma característica do mundo contemporâneo. Países ricos e pobres vivem esse problema, em graus os mais variados e por razões diversas.

O que choca é a miséria da maioria da população, num território dotado de tantos e tamanhos recursos naturais. Temos hoje 34,2 milhões de indigentes. Vinte e oito milhões das crianças brasileiras são pobres e crescem sem nenhuma perspectiva senão a de servir de mão de obra barata e farta, quando na verdade precisamos é de cérebros lépidos e criativos.

Há tempos o Brasil vem sendo citado, em extensas reportagens de televisão, em artigos e matérias de jornais, nos Estados Unidos e na Europa, como um povo que não sabe cuidar dos seus meninos e meninas. E, pior do que isso, como aquele que extermina menores, como se fossem mera caça. Os que não são mortos, permanecem abandonados e ficam escolados na universidade do crime, em que se transformaram as ruas das nossas metrópoles.

Agora, na Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, que se realiza em Viena, sob os auspícios das Nações Unidas, o Brasil foi denunciado por outra perversidade contra suas crianças. Trata-se do país latino-americano com a maior taxa de prostituição infantil.

As pessoas de mente fraca ainda não conseguiram administrar com competência e racionalidade algo que qualquer animal irracional domina por puro instinto: a sexualidade.

O corpo é transformado em mero objeto biológico. Quem age assim, não se dá conta de que essa carcassa de ossos, músculos, nervos, veias e artérias é mero meio para manter a sobrevivência do órgão nobre, onde fica a sede da razão: o cérebro. E que a racionalidade deve ser cultivada a todo o custo, sendo o seu cultivo o principal objetivo da existência humana.

Em documento emitido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, datado de 7 de maio passado, durante a 31ª Assembléia Geral da entidade realizada em Itaici, na qual foi abordada a questão da ética, há a seguinte constatação: “A sexualidade, por ser fundamental à vida humana, quando instrumentalizada ou absolutizada, converte-se em instrumento de alienação e despersonalização. O prazer, quando reduzido à genitalidade, pode ser um mecanismo para afastar as pessoas umas das outras”.

Por estas e outras, não se pode deixar de concordar com Marcel Mauss quando este constata: “Apesar de todos os inventários e de todas as teorias, existirão ainda para ser descobertas e contempladas muitas luas mortas, ou pálidas, ou obscuras, no firmamento da razão”.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 23 de junho de 1993).


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