Friday, January 18, 2013

Filmografia extensa e representativa

Pedro J. Bondaczuk

A filmografia do diretor francês Jean-Luc Godard é das mais extensas – ascende a algumas dezenas – e mais representativas. Mesmo quem não aprecia seus temas (na verdade falta deles) e seu estilo de filmar, não nega a sua importância como grande inovador. Nem poderia. Não se concebe escrever a história do cinema sem dedicar-lhe um ou vários extensos capítulos, especialmente quando se aborda a trajetória da Sétima Arte na Europa.

Apesar da importância de “Acossado”, por se tratar do seu primeiro longa metragem e, mais ainda, por ser considerado o marco inicial do movimento conhecido como Nouvelle Vague, há inúmeros outros filmes que merecem análise e atenção especial, pelos motivos mais variados. Alguns, geraram intensa polêmica, outros foram recebidos com tranqüilidade, mas nenhum deles foi tratado com indiferença pelos críticos ou por seus fiéis admiradores, muitos dos quais se tornaram, também, seus seguidores.

Destaco “Viver a Vida”, o quinto longa que rodou, considerado pela crítica a obra que marcou a maturidade do cineasta. Ao contrário de “Acossado”, o tema, aqui, é bem definido. Narra a experiência de uma mulher que se prostitui, que a despeito de vender o corpo a quem se disponha a pagar, conserva a virgindade, ao preservar a alma e não permitir que ela se corrompa. Como se vê, é mais um assunto polêmico e polêmica ainda maior é despertada por sua abordagem nada convencional e sem falso moralismo.

Neste longa metragem, Godard como que “desintegra” a tragédia, em doze quadros curtos e incisivos, contando com interpretação primorosa da atriz Anna Karina, muito bem secundada por André Labarthe e Saddy Rebbot. A respeito desse filme, Jean Douchet observou, em artigo publicado na revista “Cahiers du Cinema”: “É uma obra prima, o primeiro filme absolutamente sem falhas de Godard, que me faz lembrar os românticos alemães, mais rigorosos e mais pudicos que os franceses”.

Óbvio que a vasta filmografia do genial cineasta conta com um punhado de produções que merecem observações e/ou comentários por um motivo ou por outro. Não tenho a veleidade de abordá-los todos, até porque, se pretendesse fazer isso, teria que escrever um livro e não mero texto isolado, que tem a pretensão de ser mais uma espécie de esboço de apresentação do que de esgotar o assunto. Um filme que não pode ser omitido, porém, é “Alphaville”, rodado em 1965. Trata-se de inusitada (em termos de Godard) ficção científica, temperada com pitadinhas de espionagem.

O polêmico diretor tempera a história do agente secreto Lemmy Caution, que cumpre missão sumamente arriscada numa cidade estranha e fora do convencional, com irônicas reflexões de caráter político e filosófico. Critica, de maneira sutil, a robotização das pessoas que, em virtude de sua passividade, perdem o que o homem tem de mais característico e essencial, que é a capacidade de decisão, especialmente quando se trata da própria vida. Convenhamos, há muita gente assim, mundo afora. É provável que você conheça algumas delas e já tenha observado isso.

A Alphaville, de Godard, tem, como inúmeras sociedades por aí, um “ditador”. Não se trata, no entanto, de nenhum dos tantos caudilhos, cínicos, insensíveis e sanguinários que volta e meia freqüentam as manchetes da imprensa e que, um belo dia, acabam depostos pelos mesmos militares que os guindaram ao poder e garantiram sua permanência, não raro por décadas e que, quando não acabam fuzilados, fogem para o exterior, para viver o “doce exílio” às custas da fortuna que subtraíram do seu povo.

Quem governa, com mão de ferro, essa insólita sociedade imaginada por Godard é um computador. Como se vê, o cineasta já previa, há mais de 40 anos, a evolução dessa hoje indispensável máquina, a ponto da “criatura” dominar o “criador”. Novamente, a exemplo de “Viver a vida”, o diretor pôde contar com impecável interpretação da atriz Anna Karina, ao lado de Eddie Constantine, Howard Vernon e Akim Tamiroff, entre outros.

Para que o leitor tenha uma idéia da copiosa produção de Jean-Luc Godard, o próximo filme sobre o qual me proponho a tecer ligeiras considerações, “A Chinesa”, é o 19º da sua filmografia. Foi rodado em 1967, em plena efervescência da chamada “Revolução Cultural” na China, oportunidade em que o célebre “Livro Vermelho”, com os pensamentos e recomendações de Mao Tse-Tung, era uma espécie de catecismo para os adeptos da contracultura (ocidentais e orientais) e, na prática, o código de conduta para os chineses.

Recorde-se que o período em que o filme foi feito, antecedeu em alguns meses os levantes estudantis de 1968, na França, e em outros países da Europa. Essa obra de Godard aborda a aventura de um grupinho de adolescentes que pretendiam aplicar à própria vida os métodos maoístas então em voga na China. Trata-se, na verdade, de uma espécie de metáfora da Guerra do Vietnã, conflito revivido não nas selvas asiáticas ou em algum cenário artificial, construído ao estilo de Hollywood, mas em um modesto apartamento do centro de Paris, que os jovens singulares ocupam provisoriamente, durante o verão.

A proprietária do imóvel havia viajado para o litoral. O grupo, cuja característica era a de ser sumamente heterogêneo, e a ideologia que os ligava acabam, pouco a pouco, por destruir Kirilov, pintor obcecado pela idéia de morte, que finda por cometer suicídio. Henri, que trabalhava no Instituto de Lógica, manifestou oposição ao plano de Veronique (estudante de Filosofia, que acabou se prostituindo e tinha dificuldade para ser afastar desse tipo de vida que tanto odiava) de matar um alto dirigente universitário.

Ele se diz partidário da “coexistência pacífica” com a burguesia. Por causa dessa postura, foi expulso do grupo. Veronique acabou praticando o planejado atentado, o primeiro de uma série de ataques terroristas, objetivando, através do medo, forçar a mudança do sistema universitário. Guillaume, escritor, e Yvonne, camponesa, encontram seus verdadeiros caminhos junto às massas. O primeiro, fazendo teatro ambulante, lendo Racine para casais de namorados e Bertholt Brecht para porteiros. Já a sua companheira assume a tarefa de vender um jornal de esquerda na saída do metrô. Anne Wiazemsky, Jean-Pierre Leaud, Michel Semeniako Lex de Bruijin e Juliet Berto compõem o elenco de “A Chinesa”. Há muito ainda a se escrever sobre a filmografia de Jean-Luc Godard. Por enquanto...

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