Thursday, July 16, 2015

Pátria de chuteiras



Pedro J. Bondaczuk


O futebol no Brasil, em tempos ainda recentes, foi considerado mais do que um mero esporte, principalmente quando envolvia a seleção brasileira. Mobilizava multidões, despertava paixões extremas, era classificado por sociólogos como o “ópio do povo” (para os comunistas, esse narcótico era a religião) e merecia teses de psicólogos e psiquiatras, que viam nessa modalidade esportiva um mecanismo da catarse, de válvula de escape do cidadão para extravasar seus recalques e frustrações. Nelson Rodrigues chegou a classificá-lo de “a Pátria de chuteiras”. Foi tido, inclusive, posto que informalmente, como questão de segurança nacional.

Daí derivam as cobranças – algumas exageradas – sobre os técnicos das várias seleções, que nunca (sem nenhuma exceção), mereceram a confiança integral do torcedor. Desde Flávio Costa, em 1950, a Carlos Alberto Parreira, em 1993, o trabalho dos vários treinadores foi alvo de reparos, de críticas, de xingamentos e de absoluta falta de confiança tanto por parte dos cronistas esportivos quanto da torcida.

O leitor de mais idade certamente está lembrado do clima que cercou o selecionado de 1958 quando embarcou para a Suécia. Houve, até mesmo, um deputado mais afoito que propôs que a equipe fosse impedida de embarcar e abrisse mão da vaga, para evitar um grande vexame, como o que tinha ocorrido quatro anos antes, quando o técnico era Zezé Moreira, e a colocação brasileira, na Suíça, foi um modesto quinto lugar.

Nem é preciso dizer o que aconteceu. O Brasil foi campeão do mundo, façanha que seria repetida no Chile, em 1962, sob o comando de Aimoré Moreira, e no México, em 1970, sob a batuta deste mesmo Zagalo e do mesmíssimo Parreira tão criticados agora.

Na ocasião, ressalte-se, também o foram. Quem não de lembra da polêmica sobre se o time poderia ou não contar com três meias-esquerdas (Tostão, Pelé e Rivelino) jogando juntos? Ou da gritaria geral para que Félix deixasse de ser o goleiro (pelo mesmo motivo que se pede a saída de Taffarel, ou seja, pelos seus “frangos”)? Ou então do clamor nacional para que Brito deixasse a zaga central? Todo brasileiro é um pouco médico, técnico de futebol e economista.

E com Telê? Tanto em 1982, quanto em 1986, seu trabalho foi contestado e durissimamente criticado. Foi chamado de “burro”, de “teimosos”, de “pé frio” e de outras coisas mais, de contundência bem maior. Hoje seu nome é unanimidade nacional. De cada dez pessoas indagadas nas ruas, sobre quem deveria dirigir a seleção, ele é o preferido por nove. Deu a volta por cima e hoje é tido como “pé quente”.

Surrealista? Nem tanto. Até porque, o compositor de música clássica alemão, Ernst Theodor Wilhelm Amadeus Hoffmann (cujo nome é tão comprido quanto o do ex-capitão do nosso selecionado Sócrates), observou que “nada é mais fantástico e louco que a vida real”. E não é mesmo.

Já imaginaram se o mesmo Parreira, tão assediado, pressionado e criticado, classificar o Brasil para a Copa e em primeiro lugar? E se por um destes caprichos do próprio esporte, trouxer, no ano que vem, o tetra dos Estados Unidos? Todos os seus críticos vão desaparecer.

Como “desapareceram” atualmente os eleitores de Fernando Collor. Ou como “sumiram” no ar, misteriosamente, os que criticaram Feola em 1958, Aimoré, em 1962 e Zagalo em 1970. E como seria bom se isso ocorresse, para elevar um pouquinho o astral dos brasileiros, que anda tão por baixo!

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 22 de agosto de 1993).


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