Compositor nada popular
Pedro
J. Bondaczuk
As músicas para as
quais Machado de Assis compôs letras não
eram, propriamente, populares. Não se destinavam, por exemplo, a animar festas
da faixa mais humilde da população – a imensa maioria dos cerca de 300 mil
habitantes do Rio de Janeiro, com parcela considerável de escravos – e nem
mesmo de boa parte da incipiente classe média. Longe disso. Eram voltadas, isto
sim, para uma camada mais intelectualizada, diria da alta burguesia, que
consumia, até com voracidade, quase que exclusivamente, bens artísticos e
culturais provenientes da Europa, principalmente da França. Destinavam-se aos
saraus da intelectualidade, com pouco, ou praticamente nada, de uma linguagem
nacional, que tivesse muito, ou pelo menos algo a ver com nosso povo.
Nas ruas, o cidadão
comum, o trabalhador, o pequeno comerciante, o humilde servidor público
etc.etc.etc. cantava outras coisas, principalmente o maxixe. Misturava ritmos –
quer europeus, quer africanos –, numa mistura que parecia incompatível, mas que
acabou dando certo, lançando a semente do que viria a se constituir, alguns anos
mais tarde, na genuína música popular brasileira. Machado de Assis buscava,
sim, linguagem artística nacional, e em todas as artes. Mas suas idéias,
refletidas nas letras que compunha, eram
elevadas demais, eram eruditas em demasia, longe, portanto, do alcance do nível
cultural do povo.
Ademais, seus parceiros
musicais tinham, todos, sem exceção, formação clássica, notadamente lírica.
Muitas de suas composições foram poemas, compostos não com esse fim, posto que
musicados por artistas de grande reputação nos meios musicais. Nos sons das
ruas, porém, predominavam ritmos provenientes da África. Ou seja, melodias
dançantes e sincopadas. Isso tinha lógica óbvia. A imensa maioria da população
do Rio, reitero, era constituída de negros e mulatos. Por isso, impunha, como
seria de se esperar, sua cultura própria, e em todos os campos de atividade: na
fala, na culinária, nos costumes etc.etc.etc. e... claro, também na música.
Todavia, proposital ou
apenas instintivamente, estava em andamento uma “mistura” entre os vários
ritmos africanos com a polca, de origem austríaca, que havia chegado ao Rio de
Janeiro entre 1844 e 1846 e caído, quase que de imediato, no gosto do carioca,
não só da elite, mas de todas as camadas sociais. Os mais intelectualizados
mantinham sua “pureza” original. Já o povão, misturava-a, em graus variados,
mas sempre crescentes de uma composição para outra, com os vários ritmos
trazidos da África. O compasso binário da polca favorecia tal mistura. E foi
dela que resultou o maxixe. Pode-se dizer que este já constituía “linguagem
musical brasileira”. Conservava ainda, é verdade, um tanto da polca européia,
mas cada vez mais difícil de identificar, e acrescentava outro tanto dos ritmos
africanos. O produto era algo que não mais era nem o que tinha vindo
originalmente da Europa e nem o proveniente da África. Era mistura tão
perfeita, que caracterizava um ritmo estritamente novo, genuinamente
brasileiro. Afinal, em nenhum outro lugar do mundo, a não ser o Brasil, poderia
ser ouvido da maneira que ficou: homogeneamente “misturado”.
Não tardou para o
maxixe, aos poucos, invadir também os saraus das famílias mais
intelectualizadas (e abastadas), da nossa então incipiente elite, que se
jactavam de sua cultura européia, mas que, no entanto, se deixavam “contaminar”
por aquele ritmo exótico, tão gostoso, tão sensual e tão contagiante. Estava
nascendo, ali, por “geração espontânea”, a lídima música popular brasileira,
tão mestiça quanto era a população do País. Aliás, tão mulata como era o
próprio Machado de Assis. Não consta que nosso maior escritor, “travestido” de
compositor, tenha feito eventual parceria com algum músico popular e composto
letras, por exemplo, de maxixes. Não fez e não compôs. Isso não quer dizer,
porém, que não apreciasse os novos ritmos “brasileiros” (surgiram vários
outros, “ancestrais” do que viria a ser, um dia, o samba) como ele tanto
queria. Provavelmente os apreciava, como todo o mundo e talvez até trauteasse
uma ou outra dessas canções do gênero.
A composição de Machado
de Assis que mais se aproxima do que se pode classificar de “popular”, foi a
valsa “Lua da estiva noite”, peça para canto (óbvio, pois se não fosse, não
teria letra), mas com acompanhamento de flauta e piano. Não se pode dizer que
tenha sido “estrondoso” sucesso. Não foi cantada nas festas das famílias mais
pobres (reitero, a imensa maioria) nem trauteada nas ruas por ninguém. Não se
pode, pois, classificá-la, nem forçando a barra, de “popular”. Mas foi uma de
suas composições que mais se aproximou disso. Seu parceiro foi uma figura de
tamanha importância na vida de Machado de Assis, que merece todo um capítulo a
parte: Arthur Napoleão dos Santos.
Esse músico português,
excelente pianista, foi quem acompanhou Carolina Xavier de Novais na viagem do
Porto para o Brasil. E esta, como já é do pleno conhecimento do leitor, viria a
ser não somente a esposa, mas, sobretudo, o grande amor da vida do “Bruxo do
Cosme Velho”. Claro que sua importância extrapola a somente este fato. Arthur
foi, além de amigo íntimo e confidente, parceiro de xadrez de Machado de Assis,
outra das grandes paixões do escritor. Embora de formação erudita, ele teve
papel destacado na divulgação, e, portanto, na consolidação, da nascente música
popular brasileira.
Ao instalar-se no Rio,
tornou-se comerciante de instrumentos musicais e de partituras. Foi
proprietário da “Casa Arthur Napoleão & Companhia”, que atuava, também,
como editora. A valsa “Lua da estiva noite” não só não foi sucesso popular,
como é raridade até nos meios acadêmicos. Um dos versos dessa composição é
este:
“Lua
da estiva noite
Que
surges no horizonte
Vai
por além do monte
Cair!
cair! cair!”
Como se vê, Machado de
Assis, como compositor de letras, convenhamos, não foi nenhum Vinícius de
Moraes, ou Chico Buarque ou algo que se compare aos grandes nomes da MPB. Por
mais genial que um sujeito seja, dificilmente será notável em tudo o que fizer.
Tenho convicção, porém, de que se destacaria, também, neste campo, caso se
dedicasse à música realmente popular, o que não fez. Uma pena! Claro que isso
não diminui em nada sua importância cultural e, sobretudo, literária, em que
foi, ninguém pode negar, imbatível.
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