Thursday, July 02, 2015

Controle de inflação


Pedro J. Bondaczuk


O presidente Itamar Franco pode ser até uma pessoa muito bem intencionada, mas quando faz declarações de cunho econômico, é um desastre. Especialmente quando o assunto enfocado refere-se à inflação. Como muita gente, confunde causa com efeito. Ou seja, a disparada dos preços, com a desvalorização do desmoralizadíssimo cruzeiro --- nesta sexta-feira, pasmem, entra em circulação a cédula de Cr$ 500 mil.

Não faz muito, quem fosse possuidor de Cr$ 1 milhão gozava de um "status" especial. Integrava o seleto grupo dos "milionários". E hoje? Essa importância está abaixo do menor salário do País!

A sociedade não tem condições, mesmo que pretendesse, num arroubo suicida, de gerar inflação. Sofre, isto sim, as conseqüências da emissão tresloucada de moeda sem lastro na produção. E quem tem autoridade para emitir cruzeiros? Os empresários? Os supermercados? Os bancos?

Não! Apenas a Casa da Moeda, instituição do governo, tem este poder! E por que o faz? Para cobrir os contumazes déficits governamentais. Havendo maior volume de moeda no mercado --- incluindo papéis depositados em bancos --- os preços tenderão a disparar.

Quaisquer medidas de caráter artificial para a contenção dessa disparada, tipo controle, ou congelamento ou "acordos de cavalheiros", estarão, invariavelmente, fadadas ao fracasso. As experiências tentadas em anos recentes comprovaram isto. O ministro da Fazenda, Paulo Haddad, sabe disso. Provavelmente, o presidente também.

Todavia, a impressão que dá é que Itamar Franco se sente obrigado a dar explicações à sociedade cada vez que os índices inflacionários dão pinotes como agora em janeiro, quando se espera que cresçam em torno de dois pontos percentuais ou mais em relação a dezembro.

Caso não houvesse moeda em excesso na economia --- e o Banco Central tem condições para retirar esse excedente do mercado --- de nada valeria indústrias, farmácias, supermercados, etc., elevarem os preços de seus produtos e serviços. Tais estabelecimentos permaneceriam literalmente às moscas.

Ninguém, ou quase ninguém, teria condições de pagar. A maquininha que imprime cédulas é mais perversa do que aquela que remarca preços. Quando o governo conseguir controlar suas contas, gastar rigorosamente dentro do montante que arrecada, sem precisar de empréstimos, tomados da sociedade mediante a emissão de títulos a juros tentadores, ou, o que é pior, da forma mais desastrosa que existe, emitindo moeda sem lastro --- uma espécie de cheque sem fundo --- a inflação poderá, num primeiro instante, ser detida, para a seguir ser controlada ou até mesmo vencida.

Entrevistas desastradas, como a que o presidente deu na segunda-feira, insinuando que pode haver pacote após o Carnaval --- o que precisou de uma nota de esclarecimento para evitar interpretações de que um novo choque estaria sendo preparado --- não trazem nenhum efeito benéfico para a já tão combalida economia.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 27 de janeiro de 1993).


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