Monday, April 01, 2013


Por uma identidade

Pedro J. Bondaczuk

João queria revolucionar
o mercado inflacionário do sonho.
Resolveu que iria comprar
com seu parco salário-mínimo
um mundo encantado para Maria.
Um planeta inteiro, onde
milhares de girassóis dourados
iluminariam os dias oníricos
e as girândolas, como carrosséis
coloridos, seriam as estrelas noturnas

Compraria um vestido de seda
fiado na roca da vontade,
tingido com a mais pura púrpura
de um contido bem-querer
em que as formas de Maria
seriam realçadas. Sem as
 estrias roxas das varizes
nas suas pernas fortes,
de canelas fininhas,
que o dono da tecelagem
lhe deu, através dos anos,
como abono-produção.
Sem as marcas da celulite,
da falta da luz do sol.
Sem os sinais de desnutrição,
presentes de debutante,
dados pelos seus pais,
no dia em que completou
seus verdes quinze anos.

Compraria, para Maria,
um diadema dourado
para prender seus cabelos
que o tempo, tinhoso, pintou.
Marfim do mais fino, genuíno,
que substituísse a dentadura,
enegrecida pelas cáries,
borrada de nicotina,
prêmio macabro
a marcar-lhe o sorriso
que a miséria lhe outorgou.

Compraria um véu diáfano
para cobrir de mistérios,
ao estilo oriental,
o rosto magro de Maria,
sulcado de cicatrizes,
textura de pergaminho
onde a vida escreveu
uma história banal.
Apagada. Triste.
Comum. Proletária,
de anos de posses minguadas,
e de filhos para criar.

Na fila modorrenta do INSS,
João Tibúrcio da Silva,
nordestino, com a graça de Deus,
portador da senha de atendimento
de número trezentos e sessenta e cinco,
esperava para receber
o décimo auxílio-natalidade.

Mas queria, por causa de Maria,
sofrida, pisada e grávida,
revolucionar o mercado
inflacionário do sonho
e conquistar, não se sabe a que custo,
a própria identidade!

(Poema composto em Campinas, em 2 de março de 1981)

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