Friday, November 18, 2016

Três países num só território


Pedro J. Bondaczuk


A Lei de Diretrizes Orçamentárias, aprovada após tanta polêmica na terça-feira e que já subiu para a sanção presidencial, dá prioridade, embora de forma velada, para três setores, em termos de investimentos: transporte, energia e comunicação.

Tais inversões estão previstas para serem de 25% no mínimo, representados por 15% diretamente e 10% mediante autorização de ampliação da capacidade de endividamento das estatais que atuam nessas atividades. Não se discute a necessidade de modernização, e expansão, em campos de tamanha abrangência. Mas o prioritário, até emergencial, que salta à vista de tão óbvio e caótico, é o lado social. São os setores da saúde, da educação, da segurança pública e principalmente da habitação.

A realidade que qualquer cidadão pode observar, num simples passeio pelas ruas, é que o brasileiro é sobretudo desnutrido, desdentado, carente em termos de educação, inseguro em relação à sua proteção pessoal e patrimonial e fundamentalmente não tem onde morar.

Referimo-nos, é claro, ao Brasil da grande maioria. Há três países distintos convivendo num mesmo território, tendo um mesmo costume, uma só língua, uma única tradição e história, mas destinos muito diversos. Um, do porte do Líbano (com cerca de três milhões de pessoas) é o detentor de 55% da riqueza nacional.

O outro, um pouco mais populoso, um Peru, por exemplo, (17 milhões) é o dos que lutam para chegar ao patamar anterior e está espremido entre duas grandes forças, a do poder econômico e a das magníficas carências. É a chamada classe média.

E, finalmente, vem o terceiro grupo, com a maior parte vivendo abaixo da linha da miséria. Ele é imenso, gigantesco, assustador. Compõe-se de um Bangladesh (que tem 103 milhões de habitantes) e de uma Alemanha Oriental de sobra (16 milhões).

É nesse país dos deserdados, dos “descamisados”, como define o presidente Fernando Collor de Mello, que de cada mil crianças, 65 morrem antes do primeiro ano de vida. Que mais de 250 mil são “abatidas” anualmente pela fome e suas seqüelas. Que a virtual totalidade dos seus integrantes é marginalizada dos serviços odontológicos e é composta, portanto, por desdentados.

Para essa maioria esmagadora, para tanta gente, é que deveria ser dada prioridade absolutíssima em qualquer orçamento de qualquer governo. Uma nação não é apenas um território, uma bandeira, um hino, um ideal. É, principalmente, um povo. E, como constatou o jornalista Gaudêncio Torquato: “Uma geração desnutrida, desdentada e desprotegida jamais será sinônimo de um povo saudável e formoso”.


(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 13 de julho de 1990).

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