Sunday, November 27, 2016

Doença não reduziu a produção de Humberto de Campos

Pedro J. Bondaczuk

A doença que acometeu Humberto de Campos (a acromegalia), descoberta, tardiamente, em 1928, e tratada inadequadamente, dados os parcos recursos médicos de então, influenciaram no teor da sua produção literária. Pudera! A maioria dos escritores, em situação idêntica, sequer continuaria escrevendo. Se já não é nada fácil escrever quando estamos saudáveis e “vendendo saúde”, imaginem fazê-lo com qualquer tipo de dor, mesmo que se trate de simples e trivial dorzinha de cabeça! É um horror! Recorde-se que então não havia nem sonho de computador, essa maravilha tecnológica que facilita tanto a tarefa dos redatores atuais. Os textos, naquela primeira metade do século XX, eram “arrancados na unha”, redigidos, a maior parte deles, à mão. As revisões, os cortes e os acréscimos na fase de acabamento eram um drama. Cada modificação feita exigia que tudo o que havia sido escrito fosse copiado novamente. Um simples texto, que hoje demanda quinze minutos, se tanto, do redator experiente, exigia horas e horas de concentração e de labuta.

Mesmo as máquinas de escrever de então estavam anos-luz de distância da praticidade das que tínhamos nos anos 90 do século passado, quando os computadores pessoais começaram a se popularizar e elas viraram peças de museu. Eram grandonas, porém frágeis, e quebravam com a maior facilidade. Ora era alguma letra que se soltava da solda e que precisava ser reparada. Ora era a fita que dava problema. Isso sem contar que eram barulhentas e tiravam a concentração do redator. Os meios disponíveis de redação eram ineficientes e irritantes em condições normais, quando nada e ninguém incomodavam. Imaginem o tormento de ter que redigir textos – e não somente um, mas vários punhados deles, e todos os dias, para atender compromissos inadiáveis – sentindo-se indisposto e, pior, com alguma dor incomodando! Uma vez ou outra, qualquer redator consegue essa façanha. Mas por semanas, meses e anos?!! São pouquíssimos!

É mais um motivo (para mim, o principal) para valorizar ainda mais a obra de Humberto de Campos. A doença afetou o teor de seus textos? Provavelmente, sim! Pudera! É uma influência até subconsciente. Seus temas, nos seis anos que teve que “conviver” com a doença, foram mais sombrios, mais pessimistas, mais críticos. Alguns contos, inclusive, lembram (posto que remotamente) os assuntos tratados pelo norte-americano Edgar Alan Poe. Todavia, a acromegalia não o fez reduzir a produção, pelo contrário. Afinal, tinha que fazer face às crescentes despesas decorrentes da doença (médicos, remédios etc.etc.etc.). E quem conhece sua obra sabe que seus problemas de saúde não influenciaram em nada a “qualidade” do que escreveu. Seus livros continuavam vendendo aos borbotões, mesmo com o pessimismo que impregnou seus enredos e apesar dos temas sombrios que abordou. Metade da sua obra foi produzida nos seis anos em que a doença o atormentou (e acabou abreviando, em muito, sua vida).

Apesar de haver publicado por volta de duas dezenas de livros nesse período, muita coisa ficou inédita. Tanto isso é verdade, que diversas editoras – entre as quais me lembro da José Olympio, da Mérito, da W. M. Jackson e da Opus – lançaram sucessivas edições de suas “obras completas” até 1983. Completas?! Acho que não. Estou convicto que há muitos e muitos e muitos textos de Humberto de Campos ainda inéditos, suficientes para preencher pelo menos meia dúzia (ou mais) de volumes. O escritor maranhense passou a preocupar-se, por exemplo, com a morte, que pressentia iminente. Criou personagens rejeitados pela sociedade por deficiências que o preconceito social considerava “monstros”.

Pincei, por exemplo, em um de seus livros (“Um sonho de pobre”, de memórias, póstumo, publicado em 1935), um texto que considero revelador desse seu período de angústia. Seu título é “Reflexões sobre a morte”. Está na página 17, capítulo 2, em que escreve:
“--- Mestre, o que é a morte? – pergunta a Confúcio, um dia, um de seus discípulos.
E o filósofo:
--- Como poderemos nós saber o que é a morte se ainda não sabemos o que é a vida?”.


Porventura sabemos? Claro que não! Há milhões de conjecturas e de teorias a respeito, mas saber, saber mesmo, sem sombra de dúvidas, ninguém sabe. Todavia, nesse mesmo livro, ele, que sempre foi tido e havido como implacável e ácido crítico do comportamento do nosso povo, traçou um perfil sumamente positivo do brasileiro comum. Foi no texto intitulado “O príncipe encantador”, página 148, capítulo 20, primeiro parágrafo. Escreveu: “Nenhum povo da Terra é tão acentuadamente democrata como é o brasileiro. As condições da vida e da formação política nivelaram, aqui, as raças, as castas, os indivíduos. Por mais simples, mais pobre, mais humilde, nenhum homem se sente inferior ao seu vizinho. O sentimento de igualdade prometido nas leis permanece real, perfeito, inalterável, no fundo das consciências. Só se curva, entre nós, quem se quer curvar. A subserviência é, aqui, facultativa e só a exerce quem tem, efetivamente, a volúpia da servidão”. Só não sei se Humberto de Campos escreveria tudo isso sobre a geração atual de brasileiros, em um Brasil vivendo mais uma de suas tantas e periódicas crises institucionais. Acredito que não!

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