Wednesday, November 16, 2016

A doença que atrapalhou e abreviou a vida de Humberto de Campos

Pedro J. Bondaczuk

A vida de Humberto de Campos teve tantas circunstâncias que, claro, influenciaram decisivamente em sua vasta obra, que para relatá-las todas, seria preciso redigir um livro inteiro, e dos mais volumosos, e ainda assim muita coisa acabaria omitida. Um dia, quem sabe, eu encare esse desafio e tente trazer o máximo delas à baila. A mais dramática, sem dúvida, foi a doença que o acometeu. Foi a acromegalia, que tornou seus derradeiros seis anos de vida um inferno. Imagine, o leitor, o que significa, por exemplo, para um escritor (e ademais para qualquer pessoa, sem dúvida), a perda progressiva da visão! O efeito disso sobre o ânimo de quem passa por essa provação é bombástico. Mas não foi só isso – que mesmo que fosse, já seria terribilíssimo – mas a doença progressivamente o inutilizou. Pior: deformou-o, tornando seu aspecto físico “monstruoso”. Levou-o a retrair-se, a evitar o contato com as pessoas, a privar-se por completo da vida social e a afastar-se, até, da família.

Recorro, para a descrição da doença que acometeu Humberto de Campos, aos sempre bem vindos préstimos da Wikipédia. Essa enfermidade, que nem mesmo é assim tão rara e que, a despeito dos recursos médicos atuais, tende a ser incurável, era pouco conhecida na primeira metade do século XX. Ainda hoje, é possível que um ou outro “sortudo” seja curado. Mas caso a cura ocorra, ela é raríssima. Imaginem em 1928, quando a Medicina era bastante atrasada, se comparada aos dias atuais! Para o leitor ter uma idéia, sequer a penicilina havia, ainda, sido descoberta por Alexander Fleming, o que viria a ocorrer somente em 1937. Os diagnósticos eram quase que na base do “palpitômetro”. Tanto que os sintomas (hoje claríssimos e rapidamente identificáveis), foram diagnosticados por um dos médicos a que o escritor recorreu, como “reumatismo articular”. Claro que não era isso. Será que se fosse feito um diagnóstico correto o paciente teria chance de cura? Talvez! Todavia, não creio. É possível, contudo, que os sintomas mais desagradáveis pudessem, pelo menos, ser minorados.

Wikipédia caracteriza assim a acromegalia: “síndrome causada pelo aumento da secreção do hormônio de crescimento (GH e IGF-I) em adultos”. Ocorre que a doença é mais comum na infância e na adolescência, quando recebe o nome genérico de “gigantismo”. E o que acontece quando a acromegalia atinge adultos? A enciclopédia eletrônica responde: “Por ocorrer na fase adulta, em que as epífises já encerraram, o crescimento se dá nas partes moles e nos ossos (não no crescimento longitudinal – ficando mais alto como no gigantismo – mas em largura. Geralmente o intervalo entre o início da doença e o seu diagnóstico é de 12 anos, pois o crescimento anormal demora para ficar claramente distinto do normal”. Esse aspecto leva à conclusão que a acromegalia já estava presente no organismo de Humberto de Campos pelo menos seis anos antes de serem detectados seus primeiros sintomas, ou seja, possivelmente em 1922.

E como é essa doença neste nosso avançado século XXI? A Wikipédia responde: “A incidência é de 5 a 6 casos novos por milhão por ano. Já a prevalência é de 40 a 50 casos por milhão. A idade de início geralmente é entre a terceira e a quarta década de vida, sendo mais comum em mulheres. Tem um índice de mortalidade 2 a 3 vezes maior que a população normal, e as causas de morte são, na sequência, cardiovascular, respiratória e neoplasias”. Como se nota, a despeito dos progressos da Medicina, a acromegalia segue matando, e com relativa rapidez, as pessoas a que afeta.

E o que a pessoa, o adulto no caso, como ocorreu com Humberto de Campos, sente quando acometida pela acromegalia? Wikipédia lista alguns dos sintomas, cujos principais são: “cefaléia (dor de cabeça), distúrbios visuais, perda de campo visual, paralisia de pares cranianos, letargia, fraqueza, perda da libido, infertilidade, desfiguração facial (a arcada do maxilar inferior excede a do maxilar superior, havendo, portanto, prognatismo), aumento de mãos e pés (as mãos crescem em largura e espessura. O seu volume contrasta particularmente com o do braço, que se conserva normal), crescimento exagerado do volume do tórax, do nariz e dos genitais, fraqueza muscular, aumento da área do coração com insuficiência cardíaca e hipertensão arterial sistêmica, apneia do sono, por aumento de partes moles e aumento da língua”. Imaginem o sofrimento de Humberto de Campos. Mas o notável que, mesmo quase cego, ele não parou de escrever, até pelo menos seis dias antes de sua morte. Isso é que era força de vontade!    


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