Saturday, November 12, 2016

Imprensa expõe sua fragilidade


Pedro J. Bondaczuk


Os acontecimentos dramáticos da semana passada, na União Soviética, mostraram, entre outras coisas, um paradoxo: a fragilidade da comunidade mundial de informações. Essa fraqueza ficou especialmente clara no que diz respeito às opiniões expressadas acerca do que estava ocorrendo.

Muita coisa foi dita e escrita nesse período que certamente os que o fizeram gostariam, se pudessem, de apagar de vez, o que disseram e escreveram, mas não podem. Na terça-feira, por exemplo, quando o golpe da linha dura do Partido Comunista contra o presidente Mikhail Gorbachev estava muito distante da consolidação, e era visível para qualquer comentarista com um mínimo de experiência e visão que iria fracassar, a maioria dos analistas dava o fim da perestroika como algo líquido e certo.

Sufocada a intentona, veio uma nova torrente de lugares comuns, de previsões esdrúxulas e sensacionalistas, de discursos no mais clássico estilo da guerra fria. É cedo, muito cedo, extremamente extemporâneo para se saber o que irá acontecer na complexa União Soviética após isto que o analista da agência Reuter, Paul Taylor, classificou de "A Segunda Revolução Russa".

Uma coisa é evidente: o poder comunista foi posto irremediavelmente por terra. Outro ponto praticamente decidido, que a rigor já funcionava, é a independência dos Estados bálticos. Aliás, quem acompanhou de perto a evolução dos acontecimentos na URSS, nos últimos dois anos, sabe que Gorbachev estava propenso a aceitar essa separação, mas de uma maneira ordeira, negociada, respeitando prazos.

Um secessionismo intempestivo, recebido com uivos de satisfação por determinados setores, por sinal os mais alienados, esconde armadilhas perigosas. Pode explodir em choques étnicos e nacionalistas bastante sangrentos e até incontroláveis.

Ódios represados por décadas podem vir à tona e atingir muitos inocentes da comunidade russa que circunstancialmente vivem nas Repúblicas bálticas. Essa gente também tem seus direitos. Aliás, era nesse aspecto que o presidente soviético pensava quando pedia que a independência se desse por etapas, de forma não intempestiva.

Os temidos "Boinas Negras", ou "Omons", as tropas de elite do Ministério do Interior, atrapalharam essa estratégia, intervindo militarmente na Lituânia, Letônia e Estônia. O perigo agora é a revanche.

Como a independência dos povos bálticos parece ser um assunto virtualmente decidido, o que se espera é bom senso da parte dos líderes separatistas. Que tenham personalidade suficiente para dar às suas próprias populações o que elas de fato precisam. Ou seja, parâmetros de atuação e principalmente oportunidade para que elas próprias construam uma sociedade nacional próspera, solidária e sobretudo justa.

O mítico economista britânico, John Maynard Keynes, afirmou em certa ocasião: "Na verdade, o mundo é governado por poucos. Os homens práticos, que se acreditam bastante livres das influências intelectuais, comumente são escravos de algum finado economista. Loucos de autoridade, ouvem vozes no ar e destilam seu frenesi por algum garatujador acadêmico de alguns anos atrás". O marxismo nasceu dessa distorção. Que o fim dele não siga a mesma trilha.

O italiano Pitigrilli escreveu, num dos seus contos, carregados de humor, sarcasmo e sabedoria: "O homem não é anjo, nem fera, ou é ambas as coisas em proporções desiguais. A beneficência, a moral, a caridade não podem fabricar homens e mulheres ideais. Devem servir-se daqueles que encontram".

Nesse processo de reconstrução nacional, portanto, cabe aos líderes mostrarem que realmente são dotados do dom de liderança. Que saibam escolher pessoas certas se pretendem construir nações e não simples "acampamentos", caóticos e repletos de baderneiros.

É indispensável que se analise os acontecimentos dos "seis dias que abalaram o mundo", da semana passada, à luz das opiniões emanadas pela imprensa. A cobertura desses eventos, associada à feita durante a guerra do Golfo Pérsico do início do ano, tem lições preciosas que se deve aprender acerca do papel e da atuação dos meios de comunicação contemporâneos na interpretação da realidade. Convém, portanto, debruçar-se sobre esse assunto atentamente nos próximos dias.

(Artigo publicado na página 14, Internacional, do Correio Popular, em 27 de agosto de 1991).


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