Tuesday, November 15, 2016

Não há motivos para comemorações


Pedro J. Bondaczuk


A cidade de Nova York está engalanada para uma grande festa, que é a parada da vitória na guerra do Golfo Pérsico, a ser realizada na segunda-feira. Washington também fará um desfile semelhante, com a exibição de algumas das "vedetes" do conflito, como os helicópteros Apaches e os caças britânicos Harrier, que decolam verticalmente. Tais cerimônias, todavia, não contam com aprovação unânime.

Diversos grupos pacifistas opõem-se a elas, e com razão, posto que a morte de milhares de seres humanos não é nenhum motivo válido para se comemorar. Ademais, a própria vitória é contestável, já que somente um dos objetivos da guerra, a expulsão das tropas de Saddam Hussein do Kuwait, foi conseguido e a um preço sumamente alto, não apenas em perdas de vidas --- não importa quais --- mas sobretudo de destruição e de agressão aos princípios de civilização, tão apregoados, mas pouco praticados.

O simples fato de se ter recorrido às armas para a solução de uma controvérsia significou a derrota da razão diante da força. Que ser civilizado é esse que só resolve suas pendências através do recurso da violência? E que não se argumente com a legitimidade de uma reação diante de um tirano, no caso o presidente do Iraque.

Embora seu país tenha sido duramente atingido a ponto de regredir à Idade Média, em termos de qualidade de vida, o ditador permanece impávido no poder, mais forte do que nunca. Embora o Kuwait haja sido libertado, o preço pago foi muito alto, principalmente para a humanidade, que terá de conviver com o maior desastre ecológico provocado pelo homem desde que esse animal povoou o Planeta.

Estranhamente, a mídia omite informações a respeito dessa incrível, estúpida, monumental agressão ao meio ambiente, que foi o vazamento de milhões de litros de petróleo nas águas do Golfo Pérsico e que tem sido diariamente a fumaça lançada na atmosfera pela queima de uma quantidade impressionante de óleo cru de mais de 500 poços que ainda ardem em chamas e que não se sabe até quando.

Isto é razão para se comemorar? Os mais de US$ 400 bilhões jogados fora, importância que será necessária para a reconstrução do Iraque e do Kuwait, são motivos válidos para festa?

O que não daria para se fazer, em termos de correção das injustiças sociais, com essa importância? Com esse dinheiro, pode-se afirmar categoricamente, sem medo de exagero, que a miséria seria erradicada da Terra, caso fosse aplicado para o bem de quem realmente precisa.

Nessa questão da violência, sempre é oportuno ouvir o que um magnífico ser humano, que dedicou toda a sua vida ao próximo, como foi Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz de 1952, tem a dizer: "As armas são instrumentos desastrosos e não são ferramentas apropriadas para um nobre ser. Só quando não pode evitar é que faz uso delas. Para ele, a calma e a paz são os dons mais altos. Pode vencer, mas não tem nisso nenhum prazer. Quem quer que se regozije com a vitória pode regozijar-se também com o assassínio..."

Ao invés de parada da vitória, portanto, a humanidade, e não somente os norte-americanos, deveria reservar o dia de hoje para uma profunda meditação acerca dos rumos que o mundo está tomando. Não será, certamente, pelas armas que a tão desejada "Nova Era" de paz virá a ser implantada. A menos que ela seja a "pax romana": a dos cemitérios...

(Artigo publicado na página 15, Internacional, do Correio Popular, em 8 de junho de 1991).


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk      

No comments: