Friday, November 11, 2016

No dia em que fui personagem do Notícias Populares

Pedro J. Bondaczuk

Um dia quando (na verdade “se”) eu escrever minhas memórias, certamente não esquecerei de registrar a ocasião em que fui matéria do jornal “Notícias Populares” de São Paulo, inclusive com chamada de primeira página e tudo mais. Isso aconteceu há muito tempo, há 39 anos, num 1º de novembro de 1977. Alerto, todavia, os leitores e aqueles que gostam de mim, que não precisam ficar preocupados. E o por quê desse meu alerta? Simples. Porque a especialidade do “Notícias Populares” eram matérias que hoje compõem o cenário de programas televisivos, como “Brasil Urgente” e “Cidade Alerta”. Ou seja, seu foco concentrava-se em “violência, sexo e crimes”. O jornal notabilizou-se, sobretudo, por suas manchetes inusitadas, chamativas, digamos, “diferentes”. Chamavam a atenção nas bancas por serem violentas e sexuais. Todavia, nunca me envolvi em escândalos e muito menos em crimes, nem como autor de qualquer delito e nem como vítima.

Então, como fui parar nas páginas do Notícias Populares, inclusive com chamada de primeira página? Enfatizo que a causa de me tornarem “personagem” da citada matéria que me sensibilizou tanto e que jamais esquecerei foi positiva e construtiva. Não sei se o jornal, criado pelo imigrante romeno Jean Melle, publicado pelo Grupo Folha, veiculou, antes ou depois, reportagens que não fossem sobre sexo, crimes e violência. Mesmo em caso afirmativo, no entanto, estas foram raras exceções. E a que tratou especificamente da minha pessoa foi uma dessas matérias excepcionais. Fiquei comovido, sobretudo, por duas razões. A primeira pelo fato dela ter sido sugerida por um amigo que sempre considerei como irmão, o Flávio Paulucci, radialista com o qual trabalhei na Rádio ABC de Santo André e que não vejo há 39 anos, mas cuja amizade permanece intacta, como se tivéssemos nos encontrado ainda na manhã de hoje. O segundo motivo, pelo fato dos editores do jornal terem se sensibilizado com minha luta e terem aberto uma exceção na sua linha editorial, escrevendo matéria tão simpática e positiva.

Muitos haviam escrito a meu respeito antes, e outros tantos escreveram depois, dando-me a maior força e tratando-me com extrema generosidade. Mas nenhum texto me comoveu tanto como esse do NP. Pena que a matéria não surtiu o efeito que o Flávio esperava e que o Notícias Populares queria que surtisse. Em 1977, embora radialista e já jornalista, eu não estava ligado por contrato a nenhuma empresa de comunicação. Fazia “freelances”, é verdade, para vários jornais do interior paulista, mas minha atividade profissional não tinha nada a ver com jornalismo ou radialismo. Na ocasião, já havia escrito cinco livros, mas não publicara nenhum. O título da matéria do NP deixava claro qual era a intenção dessa publicação. Era: “Poeta quer editar seus versos”. Sabem o que aconteceu? Nada!!! Continuo, 39 anos depois, querendo publicar meus versos.              

Desde então, publiquei quatro livros, todos por interferência de amigos, ou seja, “Quadros de Natal” (contos), “Por uma nova utopia” (ensaios), “Cronos e Narciso” (crônicas) e “Lance fatal” (contos). Posso até ser um escritor razoável (presumo), mas sou péssimo negociador. Não tenho a mínima habilidade para negociações. Transcrevo, a seguir, a matéria do Notícias Populares, letra por letra:  

“O leitor Flávio Paulucci nos escreve a respeito de Pedro J. Bondaczuk, considerado "o poeta de alma azul", que durante 4 anos, em sua infância, esteve internado no Lar Escola São Francisco – entidade de recuperação para crianças paralíticas, mesmo assim, ele não esqueceu o amor ao azul e nem à vida.

Natural do Rio Grande do Sul, Pedro, já com 8 anos, iniciou seus ensaios de poeta, escrevendo versos dedicados a "Sete de Setembro". Em 1961, foi responsável pelo programa "O Brasil de Amanhã", na rádio ABC, em Santo André. Ainda na década de 60, teve seus trabalhos apresentados na Rádio Cultura de Campinas e o jornal Correio Popular publicou uma reportagem revelando seus anseios e planos.

Homenageado em vários locais e ganhador de muitas bolsas de estudos, não pôde concluir seu curso de medicina por falta de recursos. E apesar de ter participado de diversos concursos de poesia e ganho muitos deles, sua real oportunidade ainda não apareceu. Tem vários livros para serem publicados e procura um editor. Afirma que todo lucro advindo de suas publicações, caso isso venha a acontecer, será destinado ao Lar Escola São Francisco, pela sua simpatia a essa entidade.

De seus poemas, o intitulado "Dissimulação", por exemplo, foi premiado 3 vezes, mas considera-se um poeta à procura de um editor. Caso os editores se interessem, o poeta solicita que sejam enviadas cartas à Caixa Postal 1894, CEP 13100, Campinas.

As pessoas que lhe servem de exemplo na vida são: Helen Keller por saber superar suas limitações físicas; Abraham Lincoln pelo seu esforço e autoconfiança; Albert Schweitzer pelo seu desprendimento pessoal e seu imenso amor ao próximo.

Trecho do poema "Dissimulação":

Figuram-me triste,
com um ar "blasée",
revestido de tédio,
envolto na saudade,
a viver um passado.

E eu revisto o meu rosto em sombras,
torno os meus olhos opacos,
os meus sentimentos "gris",
crispo e selo os meus lábios.

E desta melancólica armadura
faço o meu perfeito disfarce,
minha útil arma de defesa,
o meu escudo protetor,
o meu refúgio indevassável.

Mas a alma, escondida,
secretamente,
estua de alegria.

O coração, à socapa,
mal esconde o seu júbilo.
A máscara falsa do rosto
nem sempre pode dissimular
que amo a vida,
que creio em Deus,
que sou feliz!!!”

Pois é, esta é a matéria, publicada em 1º de novembro de 1977 pelo Notícias Populares. É direta, é objetiva, é simpática e é, sobretudo, construtiva. Por isso, a despeito de opiniões negativas de muitos sobre este jornal – que circulou entre 15 de outubro de 1963 e 20 de janeiro de 2001 (que coincidência, justo na data do MEU ANIVERSÁRIO!) – sempre, sempre e sempre pensarei com carinho e com gratidão nos seus editores, que se sensibilizaram com minha luta. Ah, a propósito: esta ainda não acabou. Continuo, como há 39 anos, à procura, de um editor, especificamente para meu livro de poesias “O poeta de alma azul”. Se quiserem, todavia, publicar outro livro meu, de qualquer outro gênero, estejam à vontade.  Quem se habilita?!!!!!      



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