Prenúncios da violência
Pedro J. Bondaczuk
A Colômbia, nossa vizinha e
fraternal amiga, foi duramente castigada neste ano por dois acontecimentos
marcantes na vida desse sofrido povo irmão. O primeiro, foi de responsabilidade
dos homens, ditado pela incompreensão e fanatismo que dividem as pessoas em
grupos adversários e inconciliáveis.
O
outro, embora revelasse uma alta dose de imprudência das autoridades, alertadas
para a possibilidade de erupção do vulcão Nevado del Ruiz com grande
antecedência, foi ditado pela fúria da natureza. Entretanto, o fato que
registrou mais vítimas fatais, pouca conseqüência irá trazer para as
instituições do país, embora seja uma tragédia dolorosa, que certamente deve
ter enlutado toda a sociedade colombiana e toda a comunidade internacional. Já
o que fez menos de uma centena de mortos, deverá repercutir muito daqui para a
frente.
Várias
declarações, dadas entre anteontem e ontem, por membros do governo e pelo
ex-presidente Lopez Michelsen, soaram bastante inquietadoras. Elas advertem que
a Colômbia, desgraçadamente para sua população, está muito próxima de uma
“guerra suja”, como a registrada na Argentina no período de 1976 a 1982, cujos
principais personagens acabam de ser punidos pela Justiça argentina pelos
excessos que cometeram.
Mais
uma vez, nesse nosso miserável e violento continente, as experiências alheias
deixam (ou estão em vias de deixar) de ser aproveitadas, para que se possa
evitar inúteis e traumáticos “banhos de sangue”.
Quando
em agosto do ano passado o presidente Belisário Betancur estendeu,
fraternalmente, a mão à guerrilha, tentando reintegrar um vasto contingente de
colombianos à legalidade política, os sinos de todo o país repicaram
demoradamente.
Hoje,
passado um ano, chega-se à conclusão que seus repiques tiveram, na verdade, um
caráter quase premonitório. Ao invés de expressarem regozijo pelo desarmamento
dos espíritos (como se pensou na ocasião), pareciam, anunciar na verdade
tragédias, que afinal se consubstanciaram, sendo que a maior foi o selvagem
massacre registrado no mês passado no Palácio da Justiça de Bogotá.
Olhando
o panorama atual da América do Sul, que nunca teve grande tradição de
democracia, vemos grupos guerrilheiros (bastante ativos) atuando em quatro
países. No Peru, os dois mais virulentos são o Sendero Luminoso e o Tupac
Amaru, embora outros menores estejam brotando como ervas daninhas do
descontentamento das massas desesperadas.
No
Chile, a Frente Patriótica Manuel Rodriguez espalha o terror e a morte,
rivalizando com o próprio regime ditatorial na promoção da desordem, que não é,
em absoluto, aquilo que a maioria (aquela que se conserva sempre silenciosa)
deseja.
Mo
Equador, o “Alfaro Vive” manifesta a frustração dos habitantes das dezenas de
“vilas misérias” de Quito, Guayaquil e outras cidades, uma das quais o papa
João Paulo II teve a oportunidade de visitar e de onde saiu horrorizado. E,
finalmente, vem a Colômbia, onde pelo menos quatro grandes grupos trucidam,
seqüestram, destróem e roubam, especialmente no seu vasto interior.
Todos
esses países possuem raízes comuns: altas taxas de desemprego, enormes
contingentes de pessoas sem terra, sem casa, sem escola, sem passado, sem
presente, sem futuro e sequer sem alguma esperança. Uma situação, portanto,
semelhante à vivida pela Europa nos séculos XV e XVI, responsável por massacres
dantescos, que se teima em não mais levar em consideração, como se não tivessem
sido perpetrados por seres humanos contra outros e se não ocorressem por alguma
causa.
A
história nunca se repete, é verdade. Mas as reações básicas do ser humano
diante de determinadas condições, têm se mantido idênticas desde quando os
homens das cavernas começaram a organizar os seus primitivos clãs.
O
que se exige dos governantes latino-americanos é um pouquinho de seriedade na
condução dos negócios de Estado. É o abandono de práticas intoleráveis de
corrupção e de enormes esbanjamentos das ínfimas economias nacionais. É o
entendimento que as políticas concentracionistas de renda são sempre bombas de
tempo, que a qualquer momento tendem a explodir incontrolavelmente.
A
saída para o continente não está nas esquerdas, ou direitas, ou em quaisquer
outras ditaduras, de que matizes ideológicos forem. Reside no bom senso e na
honestidade. O resto, incluídas as “guerras sujas”, não passa de gratuito
derramamento de sangue, que um dia tende a se reverter contra os que deflagram
esses processos.
(Artigo
publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 11 de dezembro de
1985).
Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk
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