Thursday, September 22, 2016

Camaradagem entre desiguais


Pedro J. Bondaczuk


O líder soviético, Mikhail Gorbachev, disse, anteontem, em discurso que pronunciou no jardim da Casa Branca, em Washington, quando chegou a esse local para o primeiro encontro oficial com o presidente norte-americano, Ronald Reagan, uma frase muito marcante, por refletir a realidade que o mundo vive há 42 anos, com o antagonismo existente entre as superpotências.

Afirmou: “Nos acontecimentos mundiais, muita coisa irá depender da opção que fizermos e do que acabará triunfando: se os receios e preconceitos herdados da guerra fria, e que levaram ao confronto, ou se o bom senso, que requer ação para assegurar a sobrevivência da civilização”.

A julgar pelo clima do presente encontro, parece que a escolha recaiu sobre o segundo ponto. Aos poucos, ambos os dirigentes, conscientes de que estão escrevendo a história do final deste milênio de violências, foram deixando de lado a formalidade, se esquecendo dos estereótipos com que sempre encararam um ao outro e perceberam que, paradoxalmente, embora dirijam sistemas políticos, econômicos, filosóficos e ideológicos tão díspares, são mais parecidos do que poderiam acreditar.

Estabeleceu-se um visível elo de cordialidade, até mesmo de camaradagem, entre eles, o que os torna predispostos a serem maleáveis nos pontos em que divergem. Ficou mais claro do que nunca, a todos, que não importam a origem, a nacionalidade, a cultura, os conceitos e os preconceitos que tenham. Os homens são muito parecidos naquilo que constitui a essência da sua humanidade. Parecem-se nas suas fraquezas e virtudes. As tibiezas manifestam-se mediante a sede de poder, a justificação dos meios pelos fins e a inegável ambição de domínio. As fortalezas, por seu turno, refletem-se nos sentimentos de simpatia, de tolerância e, principalmente, de capacidade de conciliação.

O entendimento verificado entre Reagan e Gorbachev não quer dizer que, automaticamente, 42 anos de antagonismos serão esquecidos. Não significa que uma esponja será passada em todos os atritos e que tudo vai começar da estaca zero, em termos de mútuo relacionamento.
Certamente haverá momentos em que as superpotências irão se confrontar em campos opostos e até chegar, como já aconteceu em inúmeras vezes, à beira do Apocalipse. Por mais poder que os dois dirigentes detenham, eles não são os Estados Unidos e a União Soviética.

Neste mesmo instante em que estão se entendendo sobre vários pontos, grupos poderosos se movimentam, em Moscou e em Washington, para pôr tudo a perder. Há interesses imensos e inconfessáveis em jogo. E tão grandes, ao ponto de se sacrificar a paz mundial e a própria sobrevivência humana.

Mas a camaradagem estabelecida entre cordiais inimigos é uma prova de que nem tudo pode estar perdido para os homens. Que em um rasgo de generosidade, o Planeta pode acabar ganhando nova perspectiva de futuro, melhor do que a atual. Depois...Basta que seja ampliada...

(Artigo publicado na página 14, Internacional, do Correio Popular, em 10 de dezembro de 1987).


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