Wednesday, September 07, 2016

Ações e omissões na visão de Antonio Vieira

Pedro J. Bondaczuk

O escritor florentino, Giovanni Boccaccio, escreveu, em certa ocasião, que “mais vale agir na disposição de nos arrependermos do que arrependermo-nos de nada termos feito”. A vida (para o bem ou para o mal) caracteriza-se pela ação. Claro que a atitude sábia e coerente, é voltá-la, sempre e exclusivamente, para construir, não importa se alguma obra concreta ou um “edifício” de idéias que redundem, ao fim e ao cabo, em resultados palpáveis. Antonio Vieira observou, em um de seus tantos e memoráveis sermões: “Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos”. Muita gente não entende isso e se omite, quando deveria agir. Portanto, não “vive”: apenas “dura”.

Uma das características da pregação de Vieira foi a ênfase que deu à necessidade de ação, quer no plano espiritual, quer no cotidiano de todos nós. Esse aspecto é ressaltado em todos os seus mais de 200 sermões, sem nenhuma exceção. Deixou claro, por exemplo, que de nada vale o talento, caso não seja exercitado. O mesmo se pode dizer da inteligência, do conhecimento, da informação, da sabedoria etc.etc.etc. Tudo requer uma ação e, quanto mais planejada e racional ela for, tanto melhor. Agir por agir, sem rumo ou direção, nunca é eficaz. Ainda assim, é melhor do que se omitir. Todavia, não é o ideal. É desperdício de vontade e de energia. Vieira afirma: “Todo o talento é arriscado a o perder, ou não dar boa conta dele, a presunção humana. Os maiores pela soberba, os menores pela inveja, e os mínimos pela desesperação e pusilanimidade. Da casta destes últimos foi o que enterrou o talento, podendo ser melhor e mais celebrado que todos se não o enterrara”. Ou seja, poderia obter pleno sucesso caso não temesse agir. Mas temeu. Omitiu-se, portanto.

A ação é nossa característica, é o testemunho eficaz da nossa capacidade, é a prova concreta da nossa competência. O pregador destacou isso, ao observar: “Quando vos perguntarem quem sois, não vades revolver o nobiliário de vossos avós, ide ver a matrícula de vossas ações. O que fazeis, isso sois, nada mais”. Palavras tendem a ser enganadoras se desacompanhadas de atos, de resultados concretos, de obras que as comprovem. São, como observou Vieira, “tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra (...) As vozes da harpa de David lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão”.

Apenas palavras, “falam ao vento” e somente a ele. Tendem a se perder no ar, a entrar por um ouvido e sair pelo outro dos que as ouvem. Por que? Porque “para falar ao coração, são necessárias obras”. Elas são o fruto das sementes que lançamos ao léu. Vieira enfatizou: “Se a minha vida é apologia contra minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, como se há de fazer fruto?” Não há como! Se as ações são características dos seres vivos, a inação é, por conseqüência, uma aberração. Quem não age quando pode e deve agir, é omisso. E Antonio Vieira lembra as conseqüências dessa atitude. “Por uma omissão perde-se um auxílio, por um auxílio perde-se uma contrição, por uma contrição perde-se uma alma; daí conta a Deus de uma alma por uma omissão”. Mas essa postura omissa tem conseqüências não só no plano espiritual. “Por uma omissão perde-se um aviso, por um aviso perde-se uma ocasião, por uma ocasião perde-se um negócio, por um negócio perde-se um reino”.

E quantos omissos não há por aí!!!! Por exemplo, quem presencia um crime e não faz nada para impedir, é tão criminoso como quem o pratica. É, no mínimo, seu cúmplice. Quem sabe de alguma negociata escusa – tão comum, infelizmente, entre políticos, e não somente no Brasil – e não denuncia a quem de direito, por medo de represálias ou por outra razão qualquer, é tão corrupto quanto o que de fato se corrompe e, além de tudo, burro, por não auferir nenhuma vantagem de sua omissão (não que eu recomende que lucre com isso. Muito pelo contrário). Vieira chama essas pessoas de “ladrões do tempo”. Por que? Porque sua omissão contribui para a destruição, material e moral, de uma sociedade, que poderia ser evitada, caso não se omitissem.       

O pregador não se limitou a constatar o mal que essas pessoas fazem, “fingindo-se de mortas”, mas clamou por exemplar punição para elas. Exclamou, em um de seus sermões, com justa ira: “Ah omissões, ah vagares, ladrões do tempo! Não haverá uma justiça para estes ladrões do tempo, estes salteadores da ocasião, estes destruidores da república?”. É a pergunta que todos fazemos, diante da omissão dos que são tidos como “bons”, por não praticaram pessoalmente o mal, mas que fazem vistas grossas àqueles que o praticam.


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