Preconceito, segregação
e discriminação
Pedro
J. Bondaczuk
O preconceito, ou seja,
(como a própria palavra explicita) a formação de uma idéia, opinião e juízo
preconcebidos, que se manifestam geralmente por
atitudes de menosprezo e de repulsa em relação a pessoas, lugares ou
tradições considerados diferentes e estranhos (e encarados, por essa razão,
como “inferiores”), não é somente o racial, como destaquei em texto anterior
desta série de reflexões. Mas esta é sua forma de manifestação mais antiga, comum
e generalizada. É fruto, claro, do desconhecimento (total ou parcial) de quem
ou do que é seu objeto. Ou seja, provém da ignorância, acompanhada pela
imediata antipatia em relação a quem ou a o que tal atitude se volta.
O preconceito (e aqui
refiro-me especificamente ao de caráter racial), tende, no seu extremo, a
resultar em segregação. E no que esta consiste? Trata-se da separação, do
isolamento físico de uma raça ou grupo étnico mediante residência forçada (mais
raramente, pode até ser voluntária) em local predeterminado, confinada em
certas áreas que impeçam ou atrapalhem o contato. Um exemplo disso são os
guetos estabelecidos pelos nazistas alemães, para confinar judeus, durante a
Segunda Guerra Mundial. Em alguns casos, essa segregação se dá em estabelecimentos
de ensino, nos transportes públicos e até em igrejas, como ocorria nos Estados
Unidos, até meados dos anos 70 do século XX, antes que os negros conquistassem
seus direitos civis. Ou, no caso mais extremo, foi a separação entre a minoria
branca e a maioria negra na África do Sul durante o odioso regime do
“apartheid”, cuja própria palavra, no idioma “afrikaner” já sugere esse
“apartamento” racial.
Finalmente, há um
terceiro termo, que tem que ser compreendido, quando se trata dessa questão:
discriminação. Esta é sempre confundida com preconceito, embora se trate de
comportamento distinto. É, grosso modo, uma “distinção”, sobretudo no que se
refere a direitos e a tratamento social, de uma raça ou etnia que se considere
“superior” e que detém o poder, em relação a outra, tida como “inferior”. Como
se vê, os três conceitos, embora correlatos, têm significados diferentes.
Preconceito, segregação e discriminação, portanto, não são sinônimos, posto que
tenham uma única e perversa raiz. Formam uma absurda corrente de ódio e de
intolerância que, caso não seja rompida, tende a contaminar toda a humanidade.
A forma eficaz de promover essa ruptura é a educação, em seu sentido amplo. É a
informação plena, precisa e universal. É a comunicação constante que possibilite
às pessoas entenderem que é possível, desejável e necessária a harmoniosa
convivência entre “diferentes”. Diferenças não significam superioridade ou
inferioridade de quem quer que seja.
Digamos que hoje se
discrimine determinada raça por causa da cor da sua pele. Amanhã, a causa
certamente será outra, e com idênticas conseqüências. Pode ser, talvez, a
religião. E se essa corrente perversa não for imediatamente rompida, os motivos
geradores desse ódio irracional ditado pela ignorância poderão se ampliar para
coisas ainda muito mais triviais, como a roupa que alguém vista e da qual não
gostemos, a comida que costume consumir, seu jeito de andar, a maneira de falar
etc.etc.etc. Afinal, reitero e enfatizo, é uma corrente de irracionalidade. O
preconceituoso é um doente espiritual. Não enxerga a falta de lógica das suas
atitudes. Tem visão distorcida da vida e de seus objetivos.
Para melhor
entendimento do exposto, reproduzo o seguinte trecho da enciclopédia eletrônica
Wikipédia a propósito do tema: “Deve-se destacar que os termos discriminação e
preconceito não se confundem, apesar de que a discriminação tenha muitas vezes
sua origem no simples preconceito. Ivair Augusto Alves dos Santos afirma que o
preconceito não pode ser tomado como sinônimo de discriminação, pois esta é
fruto daquele, ou seja, a discriminação pode ser provocada e motivada por
preconceito. Diz ainda que: ‘Discriminação é um conceito mais amplo e dinâmico
do que o preconceito. Ambos têm agentes diversos: a discriminação pode ser provocada
por indivíduos e por instituições e o preconceito, só pelo indivíduo. A
discriminação possibilita que o enfoque seja do agente discriminador para o
objeto da discriminação. Enquanto o preconceito é avaliado sob o ponto de vista
do portador, a discriminação pode ser analisada sob a ótica do receptor’”.
Este é um assunto
desagradável e negativo de que não gostaria de tratar jamais. Contudo, é dever
do intelectual valer-se da in formação precisa que é a mais eficaz “vacina”,
talvez a única, contra o “vírus” do preconceito. Não me entra na cabeça como
pessoas, aparentemente normais e equilibradas, se deixem levar por esse
comportamento irracional, causa de tantos males. Sou forçado, a contragosto, a
dar razão ao historiador Hendrick Willelm van Loon, autor da “História da
Humanidade”, quando observa: “O homem é o único organismo vivo que é hostil à
sua própria espécie. Até a abominável hiena vive em paz com os membros da sua
espécie. Mas o homem odeia o homem, o homem mata o homem, e no mundo de hoje a
primeira preocupação de uma nação é preparar-se para matar mais vizinhos”. Como
contestar isso? Infelizmente, é incontestável.
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