Tuesday, April 08, 2014

Memória e esquecimento

Pedro J. Bondaczuk

A mente humana, a despeito de todos os avanços e descobertas ocorridos nas várias disciplinas que se propõem a estudá-la, ainda é um grande, um profundo, um insondável mistério. Sobretudo, no que se refere ao que chamamos, genericamente, de “memória”. Esse é um tema que sempre me fascinou, inclusive como escritor. Afinal, como criar personagens minimamente verossímeis sem um entendimento, mesmo que elementar, desse processo tão complexo, que se refere, basicamente, a lembranças e ao seu oposto, o esquecimento? Ambos dependem de nossa vontade? Apenas um deles depende? Em caso afirmativo, qual? Ou não temos a menor possibilidade de interferir em nenhum dos dois? Lembramos “sempre” do que queremos? Conseguimos esquecer o que nos desagrade, traumatize e magoe quando quisermos? Entendo que a resposta correta, em ambos os casos, seja enfático “não”!!!

Não conheço, e jamais soube que existisse, alguém que conseguisse forjar alguma amnésia parcial, mais propriamente, seletiva, que o levasse a esquecer, por exemplo, pessoas que melhor seria nunca ter conhecido. Ou apagar da memória as que o magoaram fundamente – como alguém que tenha amado extremadamente e que o traiu, ou o maltratou ou o feriu de qualquer maneira – ou fatos dolorosos e traumáticos de que foi vítima ou meramente testemunha. Ou tudo o mais que de desagradável e penoso tenha ocorrido e que, à simples lembrança, renove terríveis sofrimentos. Antes tudo isso fosse possível. Infelizmente, não é. Quantas pessoas, vítimas de profundas desilusões amorosas, já não estiveram à beira da loucura ou da destruição por não conseguirem esquecer quem as desiludiu?! Quantas outras, emocionalmente mais frágeis e instáveis, não acabaram destruídas, inclusive cometendo suicídio, por esse motivo?! Quantas não recorreram ao álcool ou às drogas no intento de esquecer quem tanto as magoou?! Milhares, milhões, quiçá bilhões ou sabe-se lá quantas.

Todas fizeram o possível e o impossível para esquecer... e não esqueceram. Não, pelo menos, por completo (e isso, referindo-se aos equilibrados e sensatos). Volta e meia, um filme, uma música, um poema ou outra coisa qualquer, traz subitamente à lembrança a pessoa que tanto se empenharam em esquecer e... não conseguiram. E mesmo que a recordação ressurja atenuada – o que o tempo, de vez em quando, mas não sempre, consegue fazer – não deixa de renovar a dor, a mágoa e o sofrimento originais.  Ademais, quanto mais intenso foi o amor, maior é, óbvio, a dificuldade de apagar a imagem dessa amada infiel ou maldosa ou indiferente da memória. Por que? Porque lembrança e esquecimento ocorrem à nossa revelia. Não lembramos só o que queremos. Lembramos o que “lembramos”.  Dito assim, soa estranho, mas é o que acontece. O mesmo vale, claro, para o esquecimento.

Quantos de nós já não passamos pelo constrangimento de encontrar pessoas, que foram importantes em nossas vidas, e que não reconhecemos quando topamos com elas? Às vezes, foram colegas de classe com quem chegamos a ter relacionamentos até bastante amistosos, se não intensos. No entanto... Suas figuras e suas ações apagam-se por completo da memória. É mais um caso em que o esquecimento ocorre à nossa revelia. Não queríamos esquecer, mas... esquecemos. Vocês não acham estranho esse comportamento da memória? Eu acho. Aliás, considero estranhíssimo e, não raro, constrangedor, claro.       

A propósito de esquecimento, localizei, por acaso, um poema de Pablo Neruda, exatamente com esse título, no livro “Os versos do capitão”, primorosa edição bilíngüe da editora Bertrand Brasil, com tradução do poeta Thiago de Mello. O volume em questão estava casualmente em minha mesa de trabalho, quando, nem sei por que, resolvi folheá-lo. Abri-o a esmo, antes de redigir estas reflexões. E em que página vocês acham que caiu? Exatamente na que traz o poema abaixo, intitulado, justamente, “O esquecimento”. Seria casual mesmo ou haveria algo em minha mente, alguma recordação de leitura passada, que tenha conduzido minha mão justamente na direção desses versos específicos e não de outros quaisquer? Vá se saber! Nosso cérebro é tão surpreendente, tão misterioso e tão complexo  que se pode esperar tudo dele. Mas leiam o poema de Neruda e tirem dele suas próprias conclusões. Eu já tirei as minhas.  :

“Todo o amor numa taça
imensa como a terra, todo
o amor cheio de estrelas e de espinhos
te entreguei, mas andaste
com pés pequenos, calcanhares sujos,
sobre o fogo, apagando-o.

Ai, grande amor, pequena amada!

Não me detive na luta.
Nunca deixei de perseguir a vida,
busquei a paz, sonhei pão para todos,
mas te alcei em meus braços,
te cravei nos meus beijos
e te olhei como jamais
tornarão a te olhar olhos humanos.

Ai, grande amor, pequena amada!

Tu não mediste então minha estatura,
e ao homem que para ti afastou
o sangue, o trigo, a água
confundiste
com o pequenino inseto que te caiu na saia.

Ai, grande amor, pequena amada!

Não esperes que te olhe na distância
para trás, permanece
com o que te deixei, passeia
com minha fotografia atraiçoada,
eu seguirei andando,
abrindo largos caminhos contra a sombra, fazendo
suave a terra, repartindo
a estrela para os quer vêm.

Fica no teu caminho.
Já chegou a noite para ti.
Talvez de madrugada
nos vejamos de novo.

Ai, grande amor, pequena amada!”


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