Monday, November 18, 2013

Significado esquecido


Pedro J. Bondaczuk


A data de 19 de novembro de cada ano passa, quase sempre, batida do grande público, praticamente sem ser notada. No entanto, marca o dia destinado para que os cidadãos reverenciem o símbolo máximo da Pátria: sua bandeira, tão utilizada em competições esportivas e festas informais e relegada ao esquecimento nos momentos em que deveria ser lembrada. Há quem considere essa “reverência” uma bobagem, uma atitude arcaica e ultrapassada, algo inútil e desnecessário. Eu não!!!

O civismo entre nós, salvo, digamos, em Copas do Mundo, não é propriamente nosso forte. Somos rápidos no gatilho em criticar, mas lerdos em demasia em reconhecer méritos nos que nos antecederam. Volta e meia, perdemos de vista as grandes conquistas dos antepassados, das gerações pretéritas, sem cujas obras não teríamos sequer o que temos, posto que pouco se considerarmos nosso potencial. Por exemplo, o simples fato do Brasil manter sua coesão territorial, detendo a quarta maior área contínua do Planeta, é uma realização para ser ressaltada. É rara, em termos mundiais. Pode ser considerada uma “epopéia”.

Com tudo o que passamos ao longo dos últimos 513 anos da nossa história, desde a descoberta destas terras, mesmo assim conseguimos escapar da sina do divisionismo, que afetou (e afeta) outros tantos povos mundo afora. Hoje, quando desejamos ressaltar o significado de pátria – e há tantas tribos, clãs e etnias por aí lutando por uma – temos que recorrer a textos antigos, de tanto que o pessimismo derrotista tem desgastado essa palavra. As pessoas parecer ter vergonha de expressar essa atitude, quando deveriam se envergonhar de tantas outras coisas, menos desta.

Joaquim Manuel de Macedo, por exemplo, no livro "Rio do Quarto", escreveu o seguinte a respeito: "Depois dos pais, que recebem o nosso primeiro grito, o solo pátrio recebe os nossos primeiros passos; é um duplo receber, que é duplo dar. As idéias grandes e generosas dilatam o horizonte da pátria; a religião, a língua, os costumes, as leis, o governo, as aspirações fazem de uma grande nação uma grande família, e de um país imenso a pátria de cada membro dessa família". É isso o que a bandeira simboliza.

Mas dos tantos textos que já li, ressaltando o sentido de uma pátria, o que mais se identifica com o que penso e sinto em relação ao Brasil é o poema "O Poeta Come Amendoim", de Mário de Andrade, que diz:

"Brasil amado não porque seja minha Pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso-onde-Deus der.
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
o gosto dos meus descansos,
o balanço das minhas cantigas, amores e danças.
Brasil que eu sou porque é minha expressão muito engraçada,
porque é o meu sentimento pachorrento,
porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir..."

A bandeira verde, amarela, azul e branca, com seu dístico e suas estrelas, que nesta próxima semana vai completar 114 anos de existência, representa isto e muito mais. Simboliza nosso lar, nossos pais, nossos filhos, nossos ideais permanentes, nossa esperança imortal. Enfim, significa nossa Pátria, que é única, tal como cada um de nós somos. Esse símbolo máximo da nossa nacionalidade atual é o terceiro instituído desde nossa independência. Seu “design” é um primor. Nossa bandeira nacional (mesmo sem considerar sua simbologia) é uma refinada obra de arte, tanto pela harmonia de cores, quanto pelas formas geométricas (retângulo, losango e círculo), que sugere, sobretudo, ordem, um dos ideais dos que a conceberam, sem o qual, o outro (o progresso) se torna inviável, se não impossível.

Ademais, a bandeira brasileira é uma das raríssimas do mundo a conter inscrição, e das mais felizes. Trata-se de forma abreviada do lema político positivista, cujo original, de autoria de Auguste Comte, vertido para o português, é “o Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”. Para inscrevê-lo, da forma como foi concebido, ficaria extenso em demasia. Seria, pois, inviável.  Todavia os criadores do nosso pavilhão nacional conseguiram encurtá-lo, com extrema habilidade, sem que a expressão perdesse a essência do seu significado.

Concordo plenamente com a afirmação do escritor Euclides da Cunha quando declarou: “O lema da nossa bandeira é uma síntese admirável do que há de mais elevado em política”. Pena que nossos homens públicos, aos quais delegamos, mediante o voto, a prerrogativa de nos representar, não levem em conta esse ideal de tamanha transcendência e sabedoria. A primeira bandeira brasileira foi instituída, mediante decreto assinado pelo imperador Dom Pedro I, em 18 de setembro de 1822, onze dias após a proclamação da independência. Já a segunda data de 19 de novembro de 1889. A única diferença dela para a terceira é o número de estrelas, atualmente de 28, representando os 27 Estados brasileiros e o Distrito Federal.

Há uma série de normas e formalidades determinando seu uso, quer em cerimônias públicas, quer nas particulares, previstas em lei. Ela é, oficialmente, um dos quatro símbolos do País – os outros três são as armas, o hino e o selo nacionais – estabelecidos pelo artigo 13, § 1° da Constituição brasileira. Muitos escritores (a maioria de um passado já um tanto remoto) já escreveram sobre nosso belo e harmonioso pavilhão, mas um dos melhores textos que li a propósito, foi escrito por Olavo Bilac. Ele inicia sua homenagem da seguinte forma:

“Bendita seja, Bandeira do Brasil! Bendita seja, pela tua beleza! És alegre e triunfal. Quando te estendes e estalas à viração, espalhas, sobre nós um canto e um perfume: porque a viração, que te agita, passou pelas nossas florestas, roçou as toalhas das nossas cataratas, rolou no fundo dos nossos grotões, beijou os píncaros das nossas montanhas, e de lá trouxe o bulício e a frescura que entrega ao teu seio carinhoso”.

O poeta acrescentou, mais adiante: “És formosa e clara, graciosa e sugestiva. O teu verde, cor da esperança, é a perpétua mocidade de nossa terra e a perpétua meiguice das ondas mansas que se espreguiçam sobre as nossas praias. O teu ouro, é o sol que nos alimenta e excita, pai das nossas searas e dos nossos sonhos, nume da fartura e do amor,fonte inesgotável de alento e de beleza. O teu azul é o céu que nos abençoa, inundando de soalheiras ofuscantes, de luares mágicos e de enxames de estrelas. E o teu Cruzeiro do Sul é a nossa história, as nossas tradições; viu a terra desconhecida e a terra descoberta, o nascer do povo indeciso, a inquieta alvorada da Pátria, o sofrimento das horas difíceis e o delírio dos dias de vitória; para ele, para o seu fulgor divino ascenderam, numa escalada ansiosa, quatro séculos de beijos e de preces; e, pelos séculos em fora irão para ele a veneração comovida e o culto feiticista da multidões de Brasileiros que hão de viver e lutar!”

E encerrou, em grande estilo: “(...) Bendita sejas pelo teu influxo e pelo teu carinho, que inflamarão todas as almas, condensarão numa só força todas as forças dispersas no território imenso, abafarão as invejas e as rivalidades no seio da família brasileira, e darão coragem aos fracos, tolerância aos fortes, firmeza aos crentes, e estímulo aos desanimados! Benditas sejas! E para todo o sempre, expande-te, e desfralda-te, palpita e resplandece, como uma grande asa, sobre a definitiva Pátria, que queremos criar forte e livre; pacífica, mas armada; modesta, mas digna; dadivosa para os estranhos, mas antes de tudo maternal para os filhos, misericordiosa, suave, lírica, mas escudada de energia e de prudência, de instrução e de civismo, de disciplina e de coesão, de exército destro e de marinha aparelhada, para assegurar e defender a nossa honra, a nossa inteligência, o nosso trabalho, a nossa justiça e a nossa paz! Bendita sejas para todo sempre, Bandeira do Brasil!” Perfeito! Não há mais o que acrescentar.


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